Opinião

As Comunicações e a Defesa das Nações

Não é o futuro da defesa das nações que está em jogo, mas sim o futuro do que as nações são capazes de fazer quando utilizam a infraestrutura do mundo digital.

Por Juarez Quadros do Nascimento*

Escrevo este artigo não com aplausos, mas com incompreensão das ocorrências pelo mundo com a utilização de recursos tecnológicos digitais que afetam comunicações, energia, transportes etc., nos quais as nações que deveriam agir como protetores da humanidade, na verdade agem como promotores de “Guerras entre Nações” e não na “Defesa das Nações”. Não é o futuro da defesa das nações que está em jogo, mas sim o futuro do que as nações são capazes de fazer quando utilizam a infraestrutura do mundo digital.

Para tanto, destaco a operação recente dos EUA na Venezuela desencadeada em um ambiente digital, eletromagnético e cibernético. O resultado foi consequência da supremacia americana nesse ambiente, que já ocorre há anos, mas só agora foi possível entendê-la, pois faltava vê-la no mundo real para crer. De forma surpreendente foi demonstrado o diferencial digital. Mais ou menos como também o foi na Primeira Guerra do Iraque, conhecida como Guerra do Golfo (1990-1991), liderada pelos EUA, com apoio de países como Reino Unido, Austrália e Polônia. Provavelmente, no mundo virtual as nações com alto nível de inovação tecnológica “brincam de guerra” e simulam operações relacionadas à Cyberwar.

A operação começou com um ataque cibernético que derrubou boa parte do fornecimento de energia e comunicações de Caracas a permitir que aviões, drones e helicópteros se aproximassem da capital sem serem detectados. Para abrir um corredor seguro, instalações de defesa aérea que deveriam proteger Caracas foram atacadas, segundo o Washington Post. Entre os locais atingidos estavam o porto de La Guaira, a base aérea de La Carlota e o complexo militar de Fuerte Tiuna.

A operação do dia 3 de janeiro de 2026 alerta as nações para revisitarem suas doutrinas militares. Ficou demonstrado, de forma clara e precisa, que o domínio do espectro eletromagnético e do ciberespaço pode neutralizar forças armadas convencionais, que mesmo equipadas com sistemas de defesa avançados podem ser enceguecidas, isoladas e incapacitadas. Relatos de autoridades americanas confirmaram que aeronaves (caças, bombardeiros, de guerra eletrônica e plataformas de inteligência, vigilância e reconhecimento) foram empregadas para suprimir defesas aéreas, destruir antenas de comunicações e interromper o fornecimento de energia no teatro de operações.


O episódio expôs uma vantagem digital estratégica na era da hiperconectividade, que torna as nações vulneráveis, mesmo com investimentos bilionários. Blindados, peças de artilharia, radares, sensores, navios, aviões e helicópteros – símbolos das forças armadas tradicionais –, ficam sem comando, controle, comunicações e inteligência. Ataques cibernéticos ou de pulso eletromagnético (EMP), micro-ondas direcionadas etc., suportados por Inteligência Artificial, podem paralisar não apenas o aparato militar, mas também a economia nacional, interrompendo cadeias logísticas, mercados financeiros, infraestrutura crítica e mobilidade civil.

Drones autônomos (não tripulados), armas de energia direcionada, domínio do espectro de frequências radioelétricas e Inteligência Artificial chamam a atenção das nações de que as guerras já não se medem somente nas toneladas de explosivos, milhares de soldados ou número de plataformas; mas adicionalmente na capacidade de impedir ao adversário o uso do domínio invisível: o eletromagnético e o cibernético. As famigeradas e indesejáveis guerras entre nações, com milhares de pessoas (civis e militares) mortas ou feridas, podem ser eletrônicas.

A autonomia tecnológica é condição para os responsáveis pelas nações apreciarem um cenário global marcado por áreas de influência e riscos cibernéticos ampliados pela Inteligência Artificial. Torna-se necessário que as nações desenvolvam tecnologias próprias de cibersegurança, ou as usem de nações amigas, que permitam ajustes e correções contínuas, como base para garantir soberania estratégica em um contexto geopolítico mundial cada vez mais fragmentado.

A propósito, no mundo da futurologia, desde 1996 (salvo engano), assistimos filmes em que alienígenas, usando ondas eletromagnéticas, interferem e bloqueiam as comunicações, a rede elétrica ou os transportes, como parte de invasões ao planeta Terra. Os exemplos mais notáveis incluem os filmes: “Independence Day” (1996); “War of the Worlds” (2005); “The Day the Earth Stood Still” (2008); “The Darkest Hour” (2011); “The 5th Wave” (2016) etc. No presente mundo real os terráqueos das nações desenvolvidas, com bastante inovação tecnológica e supremacia digital – e não os alienígenas –, mostram como é possível invadir outras nações. Que Deus proteja as nações em desenvolvimento ou subdesenvolvidas.

(*) O autor é Engenheiro Eletricista, Evangelista Regulatório e Tecnológico. Foi ministro de Estado das Comunicações e presidente da Anatel.

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