Inovação

SpaceX, de Elon Musk, pede autorização para frota de 1 milhão de data centers no espaço

Pedido à Anatel dos EUA prevê alimentação por energia solar e resfriamento por radiação. Mas cada satélite só dura 5 anos.

A SpaceX protocolou junto à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, a Anatel dos EUA) um pedido para operar até um milhão de satélites que funcionariam como “data centers orbitais”, numa proposta que, se aprovada, representaria a maior megaconstelação já levada à fase formal de análise regulatória. Segundo a empresa de Elon Musk, a iniciativa busca criar uma infraestrutura espacial com capacidade inédita de computação para sustentar modelos avançados de inteligência artificial e as aplicações que deles dependem.

De acordo com o documento apresentado à FCC, os satélites operariam entre 500 e 2.000 quilômetros de altitude, em órbitas com inclinações de até 30 graus e também em órbitas síncronas ao Sol. A arquitetura prevê diferentes “clusters” distribuídos em intervalos de 50 quilômetros, ajustados a distintos tipos de carga de trabalho e exigências de latência. A proposta se conecta diretamente à atual constelação Starlink, que hoje fornece internet via satélite e opera em torno de 550 quilômetros de altitude, faixa que está sendo reduzida para cerca de 480 quilômetros para diminuir latência e acelerar o desorbitamento.

A SpaceX já lançou mais de 9.500 satélites Starlink, dos quais cerca de 8.000 estão em operação, e planeja alcançar, no longo prazo, uma rede superior a 40 mil unidades. O novo sistema de data centers orbitais se integraria a essa infraestrutura por meio de enlaces ópticos de alta capacidade, com a Starlink funcionando como malha intermediária até as estações terrestres. Os satélites atuais da Starlink contam com três lasers capazes de atingir até 200 Gbps, enquanto a próxima geração promete chegar a 1 Tbps.

A aposta em comunicação óptica ganhou relevância após a Blue Origin, empresa de Jeff Bezos, anunciar o sistema TeraWave, voltado a comunicações e computação em órbita, com suporte a até 6 Tbps. Musk reagiu afirmando que futuros enlaces laser da Starlink entre o espaço e o solo deverão superar essa marca. Para funções de telemetria, rastreamento e comando, os satélites de data center da SpaceX também utilizariam equipamentos de comunicação em banda Ka, mais lentos, porém consolidados.

No pedido à FCC, a empresa defende que “data centers orbitais são a forma mais eficiente de atender à demanda acelerada por poder computacional de IA”, citando os crescentes custos energéticos e ambientais das instalações terrestres. A SpaceX afirma que a constelação seria alimentada por energia solar em mais de 99% do tempo operacional, dependendo do plano orbital, reduzindo a necessidade de baterias. Satélites em órbitas com maior incidência solar seriam destinados a cargas contínuas de computação, enquanto outros absorveriam picos de demanda. O resfriamento seria feito por radiação, e a vida útil estimada de cada unidade é de cinco anos.


A viabilidade econômica do projeto está fortemente atrelada ao foguete Starship, cujo desenvolvimento sofreu atrasos. A SpaceX argumenta que a operação plena e reutilizável do veículo é essencial para reduzir drasticamente o custo de colocar computação em órbita e permitir satélites maiores. Segundo a empresa, um cenário em que seja possível lançar um milhão de toneladas por ano, com 100 kW de poder computacional por tonelada, adicionaria cerca de 100 gigawatts anuais de capacidade de IA, com custos operacionais mínimos. “Livres das restrições do ambiente terrestre, em poucos anos o menor custo para gerar computação de IA será no espaço”, afirma o documento.

Apesar do otimismo, a companhia não apresentou um cronograma detalhado e solicitou à FCC uma dispensa das exigências de marcos regulatórios que normalmente obrigam a implantação de metade da constelação em até seis anos e da totalidade em nove. O histórico recente do Starship inclui cinco lançamentos em 2025, com explosões nos três primeiros testes e sucesso orbital nos dois últimos, ainda sem validação da reutilização completa, considerada crucial para a redução de custos. A SpaceX já indicou que pretende iniciar o lançamento de satélites de terceira geração na primeira metade de 2026, embora a empresa seja conhecida por atrasos em seus prazos.

O plano também se insere num contexto mais amplo de ambições corporativas. A SpaceX estuda abrir capital ainda este ano, com uma avaliação estimada acima de um trilhão de dólares, e Musk já declarou que os recursos da oferta pública ajudariam a financiar os data centers orbitais. Paralelamente, há negociações para uma possível fusão com a xAI, empresa de IA generativa do próprio Musk, além de discussões que envolvem a Tesla. O projeto, no entanto, não tem aprovação garantida e ampliaria de forma dramática o número de satélites ativos em órbita, hoje em torno de 14 mil.

Embora outros atores também explorem a ideia de computação espacial, como Axiom Space, NTT, Ramon.Space, Aetherflux e Sophia Space, nenhuma proposta chega perto da escala apresentada pela SpaceX. Testes pontuais já ocorreram, como o lançamento de uma única GPU pela Starcloud, enquanto executivos como Jeff Bezos projetam data centers de gigawatts no espaço em mais de uma década. O próprio Google anunciou o “Project Suncatcher”, em parceria com a Planet, para testar TPUs em órbita, com potencial teórico de escalar para terawatts. Ainda assim, o pedido da SpaceX para um milhão de satélites, descrito como pouco detalhado e ambicioso, destaca-se como o mais ousado até agora e reforça tanto o potencial transformador quanto as incertezas que cercam a próxima fronteira da infraestrutura digital.

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