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Após incidente com satélite chinês, Starlink lança monitoramento para evitar colisões no espaço

Sistema Stargaze foi anunciado após uma quase colisão com satélite chinês, em dezembro, e promete troca de dados gratuita com outras operadoras.

A SpaceX anunciou o desenvolvimento do Stargaze, um novo sistema de consciência situacional espacial que utiliza cerca de 30 mil sensores instalados em sua constelação de mais de 9.600 satélites Starlink para detectar objetos próximos em órbita baixa da Terra. A iniciativa surge em um momento de crescente pressão internacional sobre o congestionamento orbital, fenômeno do qual a própria expansão acelerada da Starlink é frequentemente apontada como protagonista.

O sistema aproveita os chamados star trackers, sensores originalmente projetados para orientar os satélites a partir da posição das estrelas. Segundo a empresa, esses equipamentos passaram a ser usados também para identificar a passagem de objetos vizinhos e estimar suas velocidades e trajetórias. A expectativa é detectar cerca de 30 milhões de trânsitos por dia, gerando um mapa dinâmico da órbita baixa e antecipando riscos de colisão.

Em seu site, a companhia afirma que o Stargaze representa um “grande avanço” para a segurança operacional, mas ressalta que operadores devem compartilhar regularmente as efemérides de suas frotas, especialmente no caso de satélites com capacidade de manobra. Para a empresa, a fonte mais confiável sobre trajetórias continua sendo a informação fornecida pelos próprios operadores, o que permitiria reduzir manobras desnecessárias e conflitos orbitais.

A plataforma será disponibilizada inicialmente em beta fechado gratuito para mais de uma dezena de operadores ainda não identificados. A partir da primavera no hemisfério norte, empresas que aceitarem compartilhar seus dados orbitais também passarão a receber informações em tempo real do Stargaze, além dos dados agregados de outros participantes.

O movimento ocorre em meio a críticas recorrentes sobre o impacto da proliferação de satélites comerciais na órbita baixa. A constelação Starlink, que já reúne milhares de unidades e continua em expansão, alterou de forma significativa a densidade de objetos em LEO. Embora a empresa sustente que seus satélites são projetados para reentrar e se desintegrar ao final da vida útil, especialistas alertam que o aumento no número de manobras e de encontros próximos eleva o risco sistêmico de colisões e da geração de detritos espaciais.


A pressão ganhou contornos diplomáticos no fim de dezembro, quando o tema foi levado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas por iniciativa da Russia, com apoio de representantes da China e da Venezuela. O debate foi impulsionado por um episódio em 9 de dezembro, quando um satélite da Starlink passou a cerca de 200 metros de outro satélite lançado por um foguete chinês Kinetica 1 a partir do Centro de Lançamento de Jiuquan.

O incidente foi citado de forma indireta no anúncio do Stargaze, que sugere a necessidade de maior compartilhamento de dados orbitais por parte de todos os operadores. A mensagem é clara: embora a SpaceX disponha de escala inédita para monitorar o ambiente orbital, a gestão segura do espaço dependeria de cooperação multilateral.

Analistas apontam que o diferencial do Stargaze não está necessariamente no hardware, mas na escala da constelação. Sistemas de consciência situacional espacial tradicionalmente dependem de radares e telescópios terrestres, capazes de rastrear objetos várias vezes ao dia. Satélites raramente são equipados para observar com precisão pequenos detritos ao seu redor, e star trackers não foram concebidos para detectar alvos escuros e de pequenas dimensões.

Ainda assim, a empresa aposta que a massa de dados coletada pela Starlink poderá alimentar modelos capazes de compreender a complexidade crescente da órbita baixa. A iniciativa coloca a SpaceX em uma posição paradoxal: ao mesmo tempo em que é um dos principais agentes do adensamento orbital, tenta assumir protagonismo na criação de ferramentas para mitigar os riscos associados a esse novo cenário.

Se o Stargaze se consolidar como plataforma colaborativa de compartilhamento de dados, poderá representar um passo relevante para a governança do espaço. Mas o sucesso dependerá não apenas da adesão de outros operadores, como também da capacidade de transformar a escala da Starlink, frequentemente criticada, em instrumento efetivo de segurança coletiva.

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