O futuro quântico vai precisar de mais do que algoritmos
A computação quântica deixou de ser apenas um conceito teórico restrito a laboratórios para se tornar uma promessa concreta de transformação econômica e tecnológica. O interesse crescente de governos, universidades e empresas sinaliza que essa corrida já começou.

Por Jamil Mouallem*
A computação quântica deixou de ser apenas um conceito teórico restrito a laboratórios para se tornar uma promessa concreta de transformação econômica e tecnológica. O interesse crescente de governos, universidades e empresas sinaliza que essa corrida já começou.
De acordo com a Grand View Research, o mercado global de computação quântica foi estimado em US$ 1,42 bilhão em 2024 e deve alcançar US$ 4,24 bilhões até 2030, com taxa média de crescimento anual de 20,5% entre 2025 e 2030. No Brasil, esse movimento também ganha corpo: o mercado nacional gerou cerca de US$ 20 milhões em 2024 e a projeção é que atinja US$ 65 milhões até o fim da década.
Esses números ajudam a dimensionar o tamanho da aposta tecnológica em curso. No entanto, há um ponto menos discutido que tende a se tornar decisivo: a infraestrutura energética capaz de sustentar esse avanço. Computadores quânticos exigem ambientes extremamente controlados, com sistemas de refrigeração criogênica e níveis de estabilidade elétrica muito superiores aos da computação tradicional.
Hoje, máquinas quânticas em operação experimental, como as desenvolvidas por IBM e Google, consomem, em média, entre 7 kW e 25 kW de potência, considerando não apenas o processador, mas todo o sistema necessário para manter as condições físicas adequadas ao funcionamento dos qubits.
Esse dado ajuda a deslocar a discussão do plano abstrato para a realidade concreta. Embora a computação quântica ainda esteja longe da adoção massiva, seu modelo de funcionamento já indica um futuro em que o processamento avançado dependerá cada vez mais de energia estável e altamente confiável. O que hoje parece restrito a poucos equipamentos tende a se expandir para centros de pesquisa, ambientes corporativos e aplicações críticas, elevando de forma estrutural a demanda por fornecimento contínuo e de alta qualidade.
O contraste é revelador. De um lado, um mercado que cresce a taxas superiores a 20% ao ano; de outro, uma base energética que precisa evoluir não apenas em volume, mas em consistência e previsibilidade. A computação quântica, assim como a inteligência artificial e os grandes centros de dados, expõe um paradoxo contemporâneo: quanto mais intangível parece a tecnologia, mais concreta se torna sua dependência de infraestrutura física.
Pensar o futuro apenas sob a ótica da inovação digital é, portanto, um exercício incompleto. A verdadeira transformação começa quando se reconhece que não existe salto tecnológico sem base energética sólida. Redes mais resilientes, fontes diversificadas e modelos de gestão que priorizem continuidade deixam de ser apenas temas do setor elétrico e passam a integrar a estratégia da economia digital.
Antes de ser quântico, o futuro exige outra base energética. Uma base capaz de sustentar não apenas os experimentos do presente, mas as aplicações críticas do amanhã. Ignorar essa equação seria construir castelos tecnológicos sobre fundações frágeis. Encará-la de frente é entender que o avanço real não está apenas nos processadores que ainda virão, mas na capacidade de manter, com solidez, tudo aquilo que eles prometem transformar.
* Jamil Mouallem é sócio-diretor da TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente.

