Indústria criativa: Mercado vive encruzilhada no Brasil
Estudo aponta que a maioria não sabe identificar inteligência artificial em filmes e TV.

A indústria criativa brasileira, que movimentou mais de R$ 393 bilhões em 2023 e representa 3,5% do PIB nacional segundo a Firjan, já começa a sentir de forma concreta os efeitos do avanço da inteligência artificial. Para contribuir com o debate sobre o tema, a consultoria Deck, Inteligência Digital para a Cultura divulgou a pesquisa inédita “Percepção da IA na Cultura e Economia Criativa”, que ouviu 1,5 mil profissionais de 16 áreas como música, cinema, artes visuais, artes cênicas, design, publicidade e gestão cultural.
Os dados foram coletados entre junho e setembro de 2025 entre participantes do curso “Inteligência Artificial aplicada à Cultura”, promovido pelo Ministério da Cultura em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e concebido pela gestora cultural Beth Ponte, autora do estudo.
Pela primeira vez, o levantamento traz a perspectiva de jovens e sêniores que atuam diretamente no setor cultural sobre uso, impacto e expectativas em relação à IA generativa. O estudo também reproduziu perguntas do relatório “Ipsos Monitor AI”, referência internacional aplicada em 32 países, permitindo comparar a visão do setor criativo com a percepção da população em geral.
A comparação revela que 93,5% dos entrevistados da área criativa consideram provável que a IA mude a forma como seu trabalho é realizado nos próximos cinco anos, enquanto na pesquisa da Ipsos esse índice cai para 61%, sugerindo que produtores culturais enxergam a transformação como mais profunda e acelerada.
O estudo indica que a indústria criativa brasileira se encontra diante de uma encruzilhada estratégica: ao mesmo tempo em que enfrenta riscos reais de automação e deslocamento de funções, também vislumbra oportunidades de aumento de produtividade e expansão de mercado. Para pesquisadores e profissionais, o debate deixa de ser apenas sobre a chegada da IA e passa a ser sobre como moldar seus usos futuros no campo cultural.
Essas mudanças já são visíveis no cotidiano profissional. Para Beth Ponte, é essencial observar que o impacto da IA não ocorre de forma homogênea. Ela afirma que a pesquisa evitou generalizações ao incluir 16 setores distintos, reconhecendo que cada área adota a tecnologia em ritmos diferentes. Beth defende que políticas e estratégias públicas e privadas precisam considerar variáveis como área de atuação, faixa etária, vínculos profissionais, escolaridade, gênero, cor e raça, para equilibrar inovação, formação e responsabilidade ética.
Mesmo com o crescimento das ferramentas de IA generativa, ainda há um descompasso importante entre uso e compreensão. Segundo o estudo, 62% dos profissionais afirmam não saber identificar quais produtos e serviços utilizam IA em seu cotidiano, um índice ainda maior que o observado pelo Ipsos na população brasileira, de 56%. A familiaridade com a tecnologia também diminui conforme aumenta a idade. Entre pessoas de 18 a 24 anos, 52% dizem saber identificar produtos que utilizam IA, enquanto a partir dos 45 anos predominam respostas de incerteza ou desconhecimento.
O avanço tecnológico também desperta preocupações. Para 35,5% dos entrevistados, a substituição de empregos por sistemas de IA nos próximos cinco anos é considerada provável. A percepção é mais intensa em setores fortemente digitalizados, como Cinema, Rádio e TV, onde o índice chega a 44,9%, e Música, com 44,3%. Ainda assim, a visão predominante é de otimismo moderado. Para 66,2% dos participantes, a IA tem potencial para melhorar o mercado de trabalho criativo no médio prazo, patamar próximo ao observado pelo Ipsos na população geral.
A consultora da Deck e revisora da pesquisa, Letícia Fernandes, afirma que o setor demonstra desejo de se capacitar e acompanhar o desenvolvimento tecnológico. Segundo ela, o momento exige estratégias de formação como requalificação profissional e aprimoramento de competências, alinhadas às recomendações da UNESCO sobre ética da IA. As principais demandas de capacitação citadas pelos entrevistados incluem automação de tarefas e processos, elaboração e gestão de projetos culturais com uso de IA e aplicação prática de ferramentas em áreas como música, audiovisual e design. Questões relacionadas a direitos autorais, propriedade intelectual e regulação da IA também foram apontadas como prioridade por uma parcela significativa dos profissionais.
O perfil dos participantes revela um retrato consistente do setor criativo brasileiro. Entre os 1.555 respondentes, 55,5% trabalham de forma autônoma, enquanto 25,4% possuem vínculo empregatício fixo. A faixa etária predominante é de adultos entre 35 e 54 anos, representando 55,5% da amostra, e 84,5% possuem graduação ou pós-graduação. Quanto à composição de gênero, 55,1% se identificam como mulheres e 41,4% como homens, com presença também de pessoas não binárias e outras identificações. Em relação à cor e raça, 48,5% se declararam negros e 47,6% brancos, com registros ainda de pessoas indígenas e amarelas.





