Megaoperação global derruba 373 mil sites de abuso sexual infantil na dark web
Ação ocorreu entre 9 e 19 de março de 2026 e contou com a participação de 23 países.

Uma operação internacional coordenada por autoridades alemãs e apoiada pela Europol resultou no desmantelamento de uma das maiores redes de plataformas fraudulentas na dark web. Batizada de “Operação Alice”, a ação ocorreu entre os dias 9 e 19 de março de 2026 e contou com a participação de 23 países, revelando a atuação de um único operador responsável por mais de 373 mil domínios onion – um tipo de endereço eletrônico projetado para ocultar a identidade e a localização de sites e visitantes.
A investigação teve início em meados de 2021, direcionada inicialmente à plataforma “Alice with Violence CP”. Durante o trabalho de inteligência, as autoridades descobriram que o operador do site mantinha uma vasta infraestrutura voltada à divulgação de material de abuso sexual infantil (CSAM, na sigla em inglês) e à oferta de serviços de cibercrime como serviço (CaaS), utilizando esquemas fraudulentos para obter pagamentos em Bitcoin sem jamais entregar os produtos anunciados.
De fevereiro de 2020 a julho de 2025, o suspeito disponibilizou conteúdo ilícito em diferentes plataformas acessíveis por meio de mais de 90 mil domínios onion. As vítimas eram induzidas a adquirir “pacotes” de material de abuso sexual infantil, com valores que variavam entre 17 e 215 euros, mediante o fornecimento de um endereço de e-mail e pagamento em criptomoedas. Os anúncios prometiam volumes de dados que iam de alguns gigabytes a vários terabytes, mas tratava-se exclusivamente de sites fraudulentos: o conteúdo era exibido em prévias, mas jamais entregue aos compradores. Além do CSAM, o esquema também oferecia dados de cartões de crédito e acessos indevidos a sistemas estrangeiros, sempre com o objetivo de convencer os clientes a efetuar pagamentos sem qualquer contrapartida real.
O operador da rede, um homem de 35 anos com residência na República Popular da China, chegou a administrar até 287 servidores simultaneamente, dos quais 105 estavam localizados em território alemão. As autoridades estimam que ele tenha obtido lucro superior a 345 mil euros com aproximadamente 10 mil clientes em todo o mundo que tentaram adquirir o material anunciado. A Justiça alemã já emitiu um mandado de prisão internacional contra o investigado.
Um dos desdobramentos mais significativos da Operação Alice foi a identificação de 440 compradores que utilizaram os serviços fraudulentos em diferentes países. Pelo fato de terem efetuado pagamentos na tentativa de acessar conteúdo de abuso sexual infantil, esses indivíduos passaram a ser considerados suspeitos pelas autoridades, mesmo sem terem recebido efetivamente o material. Investigadores avaliam que pessoas dispostas a pagar por acesso a conteúdo exclusivo e de natureza grave representam alvos prioritários, cuja identificação pode gerar informações cruciais para forças de segurança no combate à exploração sexual infantojuvenil.
Ao longo dos quase cinco anos de investigação, as autoridades atuaram de forma imediata sempre que foi identificado risco iminente a crianças, adotando medidas para garantir sua proteção. Em agosto de 2023, por exemplo, investigadores da Polícia Criminal do Estado da Baviera realizaram uma busca na residência de um pai de 31 anos que havia transferido 20 euros para adquirir um pacote com 70 GB de material de abuso sexual. O homem foi posteriormente condenado.
A participação da Europol foi essencial para o êxito da operação. Especialistas da agência europeia facilitaram o intercâmbio de informações entre as autoridades nacionais, prestaram apoio analítico e coordenaram a resposta internacional. A agência também teve papel central no rastreamento de transações em criptomoedas e na distribuição de inteligência aos países envolvidos. Segundo a diretora-executiva da Europol, Catherine De Bolle, a operação envia uma mensagem clara de que não há esconderijo para criminosos quando a comunidade internacional de aplicação da lei atua de forma coordenada.
O combate à exploração sexual de crianças é uma prioridade para a Europol. Além do suporte prestado pelo Centro Europeu de Cibercrime (EC3) aos Estados-membros na prevenção e investigação desses crimes, a agência mantém duas grandes frentes de atuação. Nesta semana, foram divulgadas novas imagens na plataforma “Stop Child Abuse – Trace an Object”, que convida cidadãos a examinar objetos relacionados a casos arquivados de abuso sexual infantil na tentativa de reconhecê-los. Qualquer pista, por menor que pareça, pode ajudar na identificação e proteção de crianças em situação de vulnerabilidade.
Em novembro de 2025, a Europol também lançou a plataforma digital Help4U, voltada ao acolhimento de crianças e adolescentes que enfrentam abuso sexual ou violência online. A ferramenta foi desenvolvida para ser simples, privada e acessível, ajudando jovens a encontrar orientação segura, compreender seus direitos e conectar-se a profissionais capacitados para oferecer suporte.




