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Valdecy Urquiza, da Interpol: “Testemunhamos a industrialização da fraude; e estamos longe de ver o pico dessa ameaça”

A Inteligência Artificial piorou muito o combate às fraudes digitais, revelou Valdecy Urquiza, secretário-geral da Interpol.

A fraude financeira contra indivíduos e empresas segue aumentando em volume, inovando em seus modus operandi e se expandindo globalmente, mas há uma colaboração entre as autoridades policiais no combate à fraude financeira.

Desde 2024, por exemplo, o número de notificações e alertas relacionados a fraudes aumentou 54%, a maioria emitida por países membros europeus, conforme indicou a Interpol em seu relatório de avaliação global da ameaça de fraude financeira. A organização internacional de polícia criminal apoiou países membros em mais de 1.500 casos de fraude transnacional, com ativos perdidos avaliados em US$ 1,1 bilhão nesse período. 

Os números foram revelados pelo brasileiro Valdecy Urquiza, secretário-geral da Interpol, ao participar do Febraban Sec, nesta quarta-feira (18/3), em São Paulo. (Clique aqui e veja o relatório completo). Fraudes digitais, expôs o executivo, se tornaram tema de preocupação de todas as polícias do mundo.

“Estamos testemunhando a industrialização da fraude, onde organizações criminosas operam como empresas, com divisão de tarefas, inclusive, contratando serviços que precisam com outras instituições criminosas, além do uso intensivo da tecnologia e alcance global. E estamos longe de ver o pico dessa ameaça; haverá crescimento contínuo tanto em volume quanto em complexidade destes delitos”, ressaltou Urquiza.

A Interpol é formada por 196 países, o que a permite contato com todas as agências do mundo. O tema de fraude online é de grande relevância para a entidade. Os custos globais e humanos decorrentes de fraudes financeiras são significativos. Estima-se que as perdas globais relacionadas a fraudes financeiras, somente em 2025, chegaram a US$ 442 bilhões. Além dos danos financeiros, as vítimas geralmente sofrem com vergonha e traumas psicológicos. 


Nesse cenário, a Interpol avalia o risco global geral relacionado a fraudes financeiras como alto e prevê que a escala dos crimes aumentará significativamente nos próximos três a cinco anos, principalmente, devido à maior disponibilidade de tecnologia de IA e às baixas barreiras de entrada. Para Urquiza, ainda veremos um crescimento exponencial, na medida em que estamos longe de alcançar o pico das fraudes digitais. 

A complexidade das investigações está relacionada à maior adoção de tecnologias de inteligência artificial pelas organizações criminosas, cujas ferramentas ajudam na execução de atividades, no convencimento das vítimas — tornando cada vez mais difícil para elas identificarem quando estão sendo alvo de ação fraudulentas — e também na expansão geográfica do alcance das fraudes. 

Outro impulsionador dos delitos é o desenvolvimento de pagamentos digitais, com grandes valores sendo transferidos entre fronteiras em segundos, dificultando a identificação dos delitos. “Essa transnacionalidade torna mais difícil a identificação dos membros da organização e a coleta de evidências”, explica o secretário-geral da Interpol. Ao extrapolar fronteiras, a ação passa ainda a depender da capacidade das polícias locais e nem todas possuem os mesmos instrumentos. “Se a ameaça vem de um outro país, dependemos da capacidade daquele país para coletar as evidências necessárias”, diz. 

“A reflexão que fazemos é qual deve ser a resposta do Estado e das agências de segurança e isso passa pela diminuição do tempo de resposta, que tem de ser imediato. A informação precisa estar disponível e, para isso, deve-se considerar a necessidade de intercâmbio efetivo entre as polícias no mundo e também a integração entre as instituições financeiras que conseguem identificar transações anormais”, completou. 

Também preocupa o uso massivo de anúncios pagos na internet, especialmente, nas redes sociais, levando ao pagamento de mercadorias que não são entregues e são ofertadas por meio da internet. Outra tendência é a fraude do tipo comprometimento de e-mails de negócios tendo como alvos executivos de empresas que são enganados a realizar transferências de recursos acreditando se tratar de operação legítima. “Atualmente, se nota uso de IA para produção de material sintético para vídeo falso, por exemplo, em chamada Teams com responsável financeiro da organização”, detalhou Urquiza.

Cresce também a extorsão  sexual com a utilização de imagens, muitas vezes, de menores de idade, para vantagem financeira ilícita, um crime que aumenta com IA sendo usada para criação de mídia sintética para extorsão.  

Diante da perspectiva de estarmos longe de alcançar o pico do problema das fraudes, que continuam crescendo, Valdecy Urquiza apontou que a resposta passa por garantir que a informação flua em tempo real. “É importante também a atuação proativa das instituições privadas (como para retirar anúncios fraudulentos) e, do lado das instituições financeiras, a identificação de contas e indivíduos que operam as contas. E vemos isso no Brasil com a cooperação da Febraban com a Polícia Federal”, completou.

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