Corrida por IA levou à escassez de componentes e obriga as empresas brasileiras a repensarem planejamento de TI
A volatilidade veio para ficar, e o planejamento de tecnologia das empresas precisa ser desenhado para absorver a crise atual - e a próxima

Por Vittorio Danesi*
A escassez global de componentes eletrônicos, especialmente memórias e chips de armazenamento, para a produção de equipamentos de TI deixou de ser um ruído pontual e passou a impor restrições concretas ao planejamento tecnológico das empresas. Para as companhia brasileiras, o efeito aparece em três frentes ao mesmo tempo: preços mais altos, prazos menos previsíveis e necessidade de antecipar decisões de compra para proteger a continuidade das operações.
O pano de fundo não é apenas “falta de chip”, como na crise do período da pandemia. O que vemos agora é uma realocação estrutural de capacidade na indústria, puxada pela corrida global por inteligência artificial e infraestrutura de data centers. À medida que fabricantes direcionam investimentos e linhas de produção para atender essa demanda, a oferta de componentes usados em PCs, notebooks, smartphones e outros eletrônicos fica mais apertada e o custo sobe.
Os sinais desse movimento já são claros. A consultoria Counterpoint Research estima que os preços globais de chips de memória devem subir entre 40% e 50% no primeiro trimestre de 2026, após a alta registrada em 2025, e aponta nova elevação na casa de 20% no segundo trimestre. Esse tipo de dinâmica costuma se traduzir em repasses ao longo da cadeia, com intensidade diferente conforme o poder de barganha e a exposição de cada empresa.
No Brasil, esse impacto ganha uma camada adicional: quando o componente crítico fica mais caro e mais disputado, a instabilidade de prazos e preços se acelera e o “custo de esperar” aumenta. Não por acaso, entidades setoriais têm destacado que o peso da memória no custo total de certos equipamentos vem crescendo, comprimindo margens e reduzindo espaço para descontos em categorias de grande volume.
Os efeitos, porém, não são homogêneos. Setores que renovam o parque de máquinas com frequência ou dependem de alto desempenho como serviços financeiros, tecnologia, BPO e educação, sentem o choque primeiro. Já organizações com menor intensidade tecnológica tendem a absorver o impacto de forma mais gradual, ainda que inevitável, porque o reajuste se propaga para contratos, reposição e expansão de infraestrutura.
Nesse contexto, ganha força uma transição que já estava em curso: a migração do modelo tradicional de CAPEX (compra) para abordagens de OPEX (serviço), como PC as a Service e outsourcing de equipamentos. Não se trata apenas de “trocar investimento por despesa”, mas de reduzir volatilidade em um cenário em que custo e disponibilidade deixam de ser estáveis. Com modelos baseados em serviço, o planejamento passa a se apoiar em previsibilidade financeira, reposição por equivalência e capacidade de ajuste de especificações conforme a oferta real do mercado.
Nesse cenário, o monitoramento e a gestão do ciclo de vida dos dispositivos em operação torna mais fácil priorizar substituições com base em diagnóstico: o que realmente exige troca imediata, o que pode permanecer em uso com segurança e onde ajustes reduzem risco operacional e de dados. Em um cenário de restrição, o ponto não é apenas comprar, é decidir com critério, preservar produtividade e manter a operação estável mesmo quando prazos e preços oscilam.
A expectativa é que a pressão sobre preços e disponibilidade continue ao longo de 2026, justamente porque a expansão de capacidade leva tempo e a demanda ligada à IA segue forte. Por isso, o ponto central não é adivinhar quando “normaliza”, e sim preparar a operação para funcionar bem mesmo quando o abastecimento global opera sob restrição.
A lição mais clara deste momento é que a cadeia global de tecnologia se tornou profundamente interdependente e sensível a transformações estruturais e a inteligência artificial é uma delas. Empresas que investirem em planejamento colaborativo, flexibilidade operacional e modelos de consumo mais previsíveis estarão mais preparadas não só para a escassez atual, mas para qualquer nova instabilidade que venha a surgir. E, como sabemos, novas rupturas vão acontecer. É só uma questão de tempo.
Vittorio Danesi é CEO da Simpress

