Opinião

Energia e resiliência em Data Centers: quando o verão testa os limites da infraestrutura

Resiliência elétrica, porém, vai muito além de geradores e UPS. Esses elementos são essenciais, mas insuficientes isoladamente.

Por Guilherme Quintanilha e Felipe Quintanilha*

O verão de 2026 confirma uma tendência já observada nos últimos anos: temperaturas médias mais elevadas, ondas de calor intensas, consumo recorde de energia e uma rede elétrica operando próxima ao limite. Para a população, isso representa desconforto e instabilidade. Para o ecossistema digital, significa risco direto à continuidade dos negócios.

Nesse contexto, os data centers ocupam posição central. Como infraestruturas críticas que sustentam serviços financeiros, telecomunicações, saúde, indústria, governo e e-commerce, sua dependência de energia confiável transforma a resiliência elétrica de um atributo técnico em um requisito estratégico.

Embora o Brasil possua uma matriz majoritariamente renovável, a forte dependência de hidrelétricas expõe vulnerabilidades em períodos de calor extremo e estiagem. A combinação de alta demanda, impulsionada por climatização, refrigeração industrial e digitalização, pressiona subestações, linhas de transmissão e sistemas de distribuição, especialmente na última milha. Alertas recorrentes de órgãos setoriais reforçam a necessidade de previsibilidade, reforço de infraestrutura e gestão ativa do consumo, mas eventos climáticos severos continuam a revelar fragilidades estruturais.

Para os data centers, o desafio é duplo: garantir disponibilidade ininterrupta mesmo diante de falhas externas e, ao mesmo tempo, controlar eficiência energética e custos em um ambiente de tarifas elevadas e restrições operacionais.


Resiliência elétrica, porém, vai muito além de geradores e UPS. Esses elementos são essenciais, mas insuficientes isoladamente. Uma abordagem madura envolve topologias redundantes bem projetadas, diversidade real de alimentação, integração entre energia, refrigeração e automação, planos operacionais baseados em cenários extremos e testes frequentes sob carga real, especialmente antes e durante o verão. O objetivo não é apenas suportar apagões, mas manter estabilidade, qualidade de energia e previsibilidade operacional mesmo com uma rede externa instável.

Sob a ótica de negócio, essa discussão ganha ainda mais peso. Energia é risco sistêmico, e risco sistêmico exige engenharia, dados e investimento consistente. Projetar apenas para o mínimo regulatório não se sustenta quando uma indisponibilidade pode gerar perdas financeiras relevantes ou danos reputacionais irreversíveis. Clientes estão mais maduros e fazem perguntas objetivas sobre autonomia, comportamento em falhas prolongadas, histórico de incidentes e capacidade de escala. Responder com transparência e dados deixou de ser diferencial, tornou-se pré-requisito.

No Brasil, o verão funciona como um teste de estresse anual. Ele expõe projetos mal dimensionados, contratos frágeis e operações dependentes de condições ideais, mas também cria uma oportunidade clara de revisão estratégica. Resiliência não se constrói em reação ao apagão; ela é planejada muito antes. Em um país continental, com clima cada vez mais extremo e economia cada vez mais digital, tratar energia como pilar estratégico deixou de ser opção. E o verão brasileiro, como sabemos, não perdoa improviso.

*Guilherme Quintanilha é Diretor de Engenharia de Infraestrutura da Equinix. Felipe Quintanilha é Diretor de Engenharia de Vendas

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