Soberania tecnológica começa pela indústria nacional
Soberania tecnológica não é isolamento. Inclusive, ela pressupõe a capacidade de integrar-se a essas inovações estrangeiras, mas sem perder o poder de escolha, de decidir caminhos, evoluções e estratégias.

Por Flávio Costa*
As discussões sobre soberania tecnológica vêm redefinindo a maneira como as nações olham para suas indústrias. Considerando as tensões geopolíticas crescentes, cadeias globais de suprimento instáveis e avanços rápidos em áreas como Inteligência Artificial e cibersegurança, a tecnologia passou a ocupar um espaço ainda mais importante nas decisões que estão estabelecendo o futuro das economias.
Nesse cenário, a soberania tecnológica está se materializando em escolhas mais estruturais, como na capacidade de um país de manter uma indústria de tecnologia verdadeiramente forte. Quando há investimentos internos no desenvolvimento de inovações essenciais, como hardware robustecido, sistemas e software especializados, é garantido à nação condições reais para atuar com mais autonomia, reduzindo fragilidades comuns a quem precisa em excesso de tecnologias estrangeiras e ampliando a capacidade de resposta a mudanças.
Depender basicamente de provedores externos para dispositivos, infraestrutura e soluções críticas significa assumir riscos de interrupção de fornecimento, exposição a políticas externas, volatilidade cambial e limitações em relação à evolução tecnológica. Ter uma indústria robusta permite justamente mitigar essas ameaças, garantindo mais previsibilidade e controle da cadeia de inovação.
Ao integrar conhecimento, engenharia e habilidades de adaptação às necessidades reais do mercado local, compreendendo todo o ambiente operacional, suas restrições e exigências, a indústria nacional desenvolve soluções mais adequadas, resilientes e confiáveis. Essas tecnologias são projetadas para operar sob condições reais e não só em cenários ideais. Esse diferencial competitivo, que possibilita moldar a tecnologia às demandas concretas do território, da infraestrutura e das organizações, não pode ser importado.
No caso do Brasil, esse debate ganha ainda mais importância. Considerando a dimensão, mercados estratégicos diversos, incluindo agronegócio, energia, serviços financeiros e setor público, e um volume crescente de dados sendo gerado diariamente, o país não pode depender apenas de tecnologia externa para sustentar tamanha complexidade. Por isso, a indústria brasileira vem construindo uma base tecnológica que responde às demandas atuais e que deve evoluir continuamente, incluindo a produção de equipamentos e sistemas capazes de serem usados em conjunto com grandes tecnologias globais como Inteligência Artificial, Internet das Coisas e Nuvem, por exemplo, já presentes no dia a dia dos negócios.
Soberania tecnológica não é isolamento. Inclusive, ela pressupõe a capacidade de integrar-se a essas inovações estrangeiras, mas sem perder o poder de escolha, de decidir caminhos, evoluções e estratégias. Fortalecer a indústria nacional é, portanto, consolidar cada vez mais a habilidade do Brasil de manter controle sobre seus próprios sistemas, suas infraestruturas, seus dados e sua economia. Em um ambiente global cada vez mais imprevisível, a produção local virou um elemento de segurança econômica e estratégica.
Vale destacar que a soberania digital não é construída somente com infraestrutura ou sistemas. O desenvolvimento humano é fundamental para esse processo. A formação de profissionais tecnicamente capacitados é a base para sustentar a evolução contínua das inovações estratégicas. Assim como uma nação não pode depender exclusivamente de soluções externas, também precisa garantir que o conhecimento e as competências necessárias para desenvolver, operar e evoluir essas tecnologias permaneçam no país.
Continuar investindo em fabricação própria de tecnologia está permitindo que o Brasil absorva transformações e avance de forma consistente, mesmo diante das instabilidades de fora. A intenção com isso é garantir que o futuro possa ser enfrentado com solidez, tornando o país um protagonista da inovação e não só um consumidor das novidades tecnológicas globais.
Flávio Costa é Sócio Diretor da Daten Tecnologia

