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Microdramas derrotam Netflix e se tornam principal conteúdo de vídeo no celular

China domina, mas esses vídeos de até dois minutos já se tornam mais populares que streaming pelo smartphone nos EUA.

Os microdramas se consolidam como um dos formatos de vídeo online de crescimento mais acelerado no mundo e já superam plataformas tradicionais de streaming em tempo diário de consumo no celular. Análise da consultoria Omdia com base em dados de uso móvel indica que, nos Estados Unidos, os usuários passam mais tempo por dia assistindo a microdramas em aplicativos dedicados do que consumindo Netflix, Disney+ ou Amazon Prime Video em dispositivos móveis.

A Omdia estima que a receita global de microdramas tenha alcançado US$ 11 bilhões (R$ 56 bilhões) em 2025 e deve chegar a US$ 14 bilhões (R$ 71 bilhões) até o fim de 2026. Desse total, US$ 3 bilhões (R$ 15 bilhões) serão gerados fora da China, com os Estados Unidos já configurando o maior mercado internacional. Até 2026, o país deve responder por metade de toda a receita de microdramas fora da China, alcançando US$ 1,5 bilhão.

Durante o evento MIP London, Maria Rua Aguete, chefe de mídia e entretenimento da Omdia, afirmou que os microdramas deixaram de ser um experimento de nicho para se tornar um motor central de engajamento em vídeo móvel. Segundo ela, o destaque não está apenas na expansão das receitas, mas na intensidade de uso. Nos celulares, aplicativos de microdramas já geram mais minutos diários de visualização do que as maiores plataformas globais de streaming.

Os microdramas têm, em geral, duração de um a dois minutos, são produzidos em formato vertical e pensados prioritariamente para o consumo em smartphones. O público principal é formado por mulheres entre 25 e 45 anos, embora novos gêneros busquem atrair homens e outras audiências. A descoberta de conteúdo ocorre sobretudo por meio de plataformas como YouTube, Instagram e TikTok.

Dados da Sensor Tower analisados pela Omdia referentes ao quarto trimestre de 2025 mostram que, nos Estados Unidos, aplicativos como ReelShort registram média de 35,7 minutos diários por usuário, acima dos 24,8 minutos da Netflix, 26,9 minutos do Amazon Prime Video e 23 minutos do Disney+. Embora a Netflix ainda lidere em número de usuários móveis ativos mensais, com cerca de 12 milhões contra 1,1 milhão do ReelShort, o nível de engajamento conta uma história diferente.


Segundo Aguete, os microdramas vencem a disputa por atenção, ainda que não em escala. A métrica é considerada central para plataformas que buscam ampliar o uso móvel e competir com redes sociais de vídeo, onde o engajamento diário se aproxima de 80 minutos.

O avanço também é observado em outros mercados. No Reino Unido, o aplicativo FlickReels supera o Amazon Prime Video em minutos diários de uso móvel. No México, o DramaBox registra desempenho superior ao Amazon Prime Video e ao Disney+.

Empresas tradicionais de mídia começam a reagir. No México, a TelevisaUnivision incorpora séries curtas em seu serviço ViX dentro de modelos baseados em publicidade e ofertas freemium. No Brasil, o Globoplay também aposta em conteúdos seriados de curta duração para ampliar alcance e engajamento.

Para as grandes plataformas globais, a análise da Omdia indica pressão crescente para reduzir a diferença de engajamento móvel em relação a plataformas sociais como YouTube e TikTok. A adoção de estratégias de vídeo vertical e formatos curtos surge como caminho para elevar o consumo em smartphones sem comprometer o conteúdo premium de longa duração.

Além do impacto sobre streamers e produtoras, os microdramas também representam oportunidade para operadoras de telecomunicações. Com consumo intensivo em dispositivos móveis, baixo custo de produção e alto potencial de recorrência diária, o formato pode ser incorporado como valor agregado em pacotes de serviços, ferramenta de redução de churn, iniciativa financiada por publicidade ou mecanismo de engajamento orientado por dados. Em um cenário de pressão sobre receita média por usuário, commoditização da conectividade e investimentos elevados em 5G, o novo formato desponta como alternativa estratégica para ampliar diferenciação e retenção.

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