GovernoInternet

Entidades veem falhas e cobram maior debate sobre estratégia nacional de transformação digital

Coalizão Direitos na Rede, Intervozes, Nupef e outros reclamam que falta de referências ao debate dificulta entendimento da população sobre os objetivos de uma nova política.

Dez entidades da sociedade civil apresentaram uma série de pedidos ao Comitê Interministerial para a Transformação Digital, vinculado à Casa Civil da Presidência da República, sobre a forma como o governo está conduzindo a consulta pública para elaborar a Estratégia Nacional de Transformação Digital. O documento foi articulado a partir da Rede pela Soberania e é assinado por organizações como a Coalizão Direitos na Rede, o Coletivo Intervozes, o Instituto Nupef, a Open Knowledge Brasil e a Transparência Brasil, entre outras.

O ponto de partida é a Portaria CC/PR Nº 730, publicada em 6 de fevereiro de 2026, que abriu uma chamada pública para coletar contribuições da sociedade com o objetivo de construir a estratégia digital do país para os próximos anos, com horizonte até 2031. O processo envolve seis grandes perguntas sobre temas como tendências do mundo digital, desafios estruturais do Brasil e oportunidades no cenário geopolítico.

As entidades reconhecem a importância da iniciativa. No ofício, elas elogiam o governo por buscar participação popular na formulação de políticas públicas para a área digital, especialmente diante dos riscos que as novas tecnologias representam para direitos fundamentais, meio ambiente e soberania nacional, num contexto dominado por grandes empresas norte-americanas que, segundo o texto, “atuam fortemente contra a regulação”.

Apesar do reconhecimento, as organizações apontam falhas sérias no formato da consulta. A primeira delas é o prazo: pouco mais de 30 dias para responder perguntas de tamanha complexidade é considerado insuficiente, e as entidades pedem que ele seja ampliado para 90 dias.

Além do tempo, as organizações argumentam que o governo deveria realizar audiências públicas presenciais antes de receber contribuições escritas. Esses espaços serviriam para explicar os temas em debate, apresentar o posicionamento dos ministérios envolvidos e esclarecer como o Brasil tem negociado acordos internacionais na área digital.


Outro problema apontado é a ausência de um documento de referência. As perguntas foram publicadas sem qualquer texto de apoio que contextualize o debate e apresente as perspectivas do governo. Sem esse material, argumentam as signatárias, fica difícil para a população em geral, e não apenas para especialistas e empresas, formular contribuições qualificadas. Por fim, as entidades também cobram a publicação de um calendário completo com todas as etapas do processo, desde a consulta até a aprovação final da estratégia.

Para as entidades, o problema não é apenas técnico, mas político. Sem essas condições mínimas, a consulta pública tende a ser respondida apenas por “iniciados e agentes econômicos que atuam no mercado”, excluindo setores mais amplos da sociedade. O texto do ofício deixa claro que esse não deveria ser o objetivo de um governo que se propõe a construir uma estratégia digital de forma participativa e democrática.

Botão Voltar ao topo