

A ideia de “nuvem soberana” como solução estratégica para o setor público é um “grande modismo” e algo “impossível” na prática. A afirmação é do presidente da Prodesp, Gileno Barreto, durante painel sobre o papel das empresas públicas de TIC na transformação digital, realizado nesta terça-feira, 3/3, no Tech Gov Forum MT, promovido pela Network Eventos.
“Não acredito em nuvem soberana. É impossível. Isso é um grande modismo. É legal ter o meu datacenter. É legal. Mas a que custo? E para proteger o quê? Acho que isso é o que tem que se pensar”, afirmou Barreto.
Segundo ele, o debate precisa diferenciar dados sensíveis de informações públicas ou estratégicas que podem, e devem, circular para gerar inovação. “Se eu tenho dados sensíveis, dados pessoais ou estratégicos do ponto de vista econômico do setor público, treino o meu modelo, fecho aquele perímetro e tenho que proteger essa informação. Fora isso, é atrapalhar o desenvolvimento”, disse.
Barreto também se posicionou contra uma regulação ampla de inteligência artificial no Brasil neste momento. “Sou contra a regulação de IA de qualquer maneira. Acho que é regular um problema que não existe. A utilização de IA no Brasil é muito pequena. Por que vou regular? Deixa acontecer o problema”, afirmou. Para ele, o caminho mais adequado seria a “autorregulação regulada”, conceito do direito regulatório que pressupõe monitoramento e ajustes quando necessário.
Ele alertou, porém, para os riscos do uso indiscriminado de grandes modelos de linguagem com dados públicos. “Na hora que aperta o botão e concorda com os termos, colocou dado numa LLM, esse dado vai estar disponível. Aqueles dados não são mais seus”, disse, defendendo que informações sensíveis sejam tratadas em ambientes próprios, com treinamento interno de modelos.
Ao lado de Barreto, o presidente da MTI, a Empresa Mato-grossense de Tecnologia da Informação, Cleberson Gomes, destacou o papel das empresas públicas como tradutoras das necessidades do Estado em soluções tecnológicas. “A MTI vai ser a provedora de serviços de tecnologia para resolver os problemas do setor público. Essa é a nossa missão”, afirmou.
Segundo ele, a relevância da tecnologia depende do conhecimento profundo das políticas públicas. “Tem que entender como a Saúde trabalha, como a Educação trabalha, como a Secretaria de Fazenda trabalha. É aproveitar essa expertise do setor público e levar a tecnologia para potencializar”, disse.
Gomes afirmou que a MTI mantém atualmente 16 projetos de inteligência artificial em andamento, mas reconheceu que o principal desafio é converter iniciativas em resultados concretos. “A própria IA é um hype, mas sem saber qual o resultado prático ela está trazendo. O grande desafio é transformar em resultado prático.”
Já o presidente da Procergs, Luiz Fernando Záchia, apresentou a experiência do Rio Grande do Sul como exemplo de maturidade digital. Segundo ele, 72% dos serviços públicos estaduais já são realizados de forma digital.
Um dos destaques é a Guria, plataforma de inteligência artificial acessada via WhatsApp, que envia alertas sobre renovação de carteira de motorista, débitos de IPVA e campanhas de vacinação. A ferramenta foi desenhada para funcionar inclusive com pacotes mínimos de internet móvel, ampliando o alcance social. “É uma entrega para a sociedade de uma maneira absolutamente gratuita, facilitada”, afirmou Záchia.




