Inovação

Investimento global em data centers bate R$ 3 trilhões e supera petróleo pela primeira vez

Avanço da inteligência artificial impulsionou o recorde histórico, mas setor enfrenta crise energética, gargalos na infraestrutura e riscos de crédito.

O dito de que os dados são o novo petróleo nunca foram tão verdadeiros. Os investimentos globais em data centers alcançaram a marca inédita de US$ 580 bilhões (R$ 3 trilhões) em 2025, o que representa um crescimento de 27% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez, os gastos com infraestrutura de processamento e armazenamento de dados superaram os investimentos em novas fontes de suprimento de petróleo. Os números fazem parte do relatório Facilitating AI with Unprecedented Infrastructure, divulgado pela consultoria Colliers.

De acordo com o estudo, o volume recorde foi impulsionado pelos aportes direcionados à inteligência artificial, sendo que US$ 445 bilhões partiram exclusivamente de empresas de tecnologia. A Colliers classifica o movimento como uma “mudança estrutural” que coloca os data centers entre as categorias de infraestrutura com maior intensidade de capital no mundo.

Projeções de diferentes consultorias independentes indicam que, em 2026, o investimento global no setor deve se manter no patamar de US$ 580 bilhões ou superá-lo. Somente nos Estados Unidos, os gastos podem chegar a US$ 500 bilhões.

Apesar do otimismo com o crescimento acelerado, o relatório alerta que o desenvolvimento do setor será “cada vez mais definido por quais mercados conseguem financiar, licenciar, prover energia e executar projetos em prazos realistas”. O cenário de restrições elétricas tem redefinido a economia dos empreendimentos, que passam a priorizar a segurança no fornecimento de energia e a previsibilidade na entrega da infraestrutura.

O documento menciona que concessionárias de energia estão exigindo depósitos de US$ 25 milhões a US$ 75 milhões por projetos, muitas vezes não reembolsáveis. Em regiões como o Norte da Virgínia, principal polo de data centers nos EUA, a conexão à rede elétrica pode levar até sete anos. Com isso, os custos com infraestrutura de energia passaram a consumir entre 40% e 50% do orçamento total dos projetos.


Pesquisadores independentes projetam que serão necessários cerca de US$ 3 trilhões em investimentos até 2030 para atender à expansão global prevista para o setor. No entanto, a magnitude dos aportes exigidos tem gerado preocupações quanto à sustentabilidade do financiamento, diante do risco de retornos lentos e da crescente exposição ao capital privado.

O relatório da Colliers aponta que as chamadas hyperscalers emitiram mais de US$ 120 bilhões em dívida em 2025, valor mais de cinco vezes superior à média dos últimos cinco anos. Apesar da captação expressiva, a capacidade de execução tem sido um gargalo: mais de US$ 64 bilhões em projetos nos Estados Unidos foram adiados ou cancelados devido à escassez de energia, atrasos na concessão de licenças e problemas na cadeia de suprimentos.

O relatório também chama atenção para o aumento da exposição ao risco no mercado de crédito privado, que atualmente financia entre 60% e 75% do capital para projetos em estágio inicial. De acordo com o Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), o total de crédito com juros ativo no setor de tecnologia ultrapassa US$ 1,3 trilhão, concentrado majoritariamente em cerca de uma dúzia de grandes empresas focadas em IA.

A Colliers alerta que o capital está sendo alocado por meio de estruturas opacas e com liquidez reduzida, sujeitas a supervisão regulatória limitada. “Isso concentra a exposição ao risco de aquisição de terrenos com infraestrutura energética e de projetos em estágio inicial nos mercados privados”, afirma o documento, que prevê risco de “desarticulação” entre os mercados de crédito privado e as camadas mais tradicionais de capital caso as condições de refinanciamento se apertem ou as expectativas de demanda sejam revistas.

O cenário de endividamento elevado tem gerado alertas por parte de agências de classificação de risco. Em relatório divulgado neste mês, a Moody’s destacou que os gastos agressivos no setor podem resultar em excesso de capacidade instalada e retornos aquém do esperado.

Segundo a agência, o intervalo entre o início dos gastos e a geração efetiva de receita em um data center varia de 12 a 24 meses, o que aumenta a pressão sobre o caixa das empresas. A Moody’s acrescentou que o aumento da intensidade de capital e dos níveis de endividamento entre as *hyperscalers* poderá levar a uma “reavaliação da qualidade de crédito” caso o crescimento dos lucros não se concretize no prazo esperado.

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