
Pouco mais de três meses após o início de 2026, o setor global de tecnologia já acumula 45.363 demissões, colocando a indústria em uma trajetória que pode superar os totais do ano anterior caso o ritmo atual se mantenha. Em 2025, foram eliminados aproximadamente 245.000 postos de trabalho no setor e projeções com base no ritmo atual de 2026 apontam para até 264.730 cortes até o final do ano.
A onda de demissões segue anos de correção pós pandemia, durante os quais quase 1 milhão de empregos em tecnologia foram eliminados globalmente desde 2021. O que começou como um recuo da superexpansão do período pandêmico evoluiu para uma transformação estrutural na forma como as empresas de tecnologia operam. A integração de inteligência artificial, a automação de processos e a disciplina rigorosa de custos agora impulsionam grande parte das reduções, com departamentos inteiros sendo reestruturados ou eliminados em favor de fluxos de trabalho mais enxutos e assistidos por IA.
Outro fenômeno que já começa a ser notado é que a temporada de cortes também alcançou Wall Street. Gigantes financeiros como o Morgan Stanley começaram a cortar milhares de postos de trabalho à medida que sistemas automatizados reduzem a necessidade de grandes equipes operacionais responsáveis por tarefas manuais.
Do total de demissões registradas desde o início do ano, 9.238, cerca de 20%, foram vinculadas diretamente à adoção de inteligência artificial, à automação ou a reestruturações organizacionais associadas a essas tecnologias. Empresas de diferentes portes e continentes têm reconfigurado equipes e fluxos de trabalho em torno de sistemas assistidos por IA, reduzindo o quadro em áreas onde tarefas passam a ser executadas de forma automatizada.
O maior corte individual relacionado à IA em 2026 foi anunciado pela Block, empresa de tecnologia financeira liderada por Jack Dorsey, que eliminou 4.000 postos. Em declaração nas redes sociais, Dorsey afirmou que a decisão não foi motivada por dificuldades financeiras, mas pela crescente capacidade das ferramentas de IA de executar um número cada vez maior de funções. Com isso, a empresa reduziu seu quadro de aproximadamente 10.000 para cerca de 6.000 funcionários, intensificando sua aposta estratégica em inteligência artificial. O movimento de 2026 se soma a uma onda anterior de cortes, quando a Block já havia eliminado 931 postos, cerca de 8% do efetivo à época.

A WiseTech Global, desenvolvedora australiana de software logístico, anunciou 2.000 demissões vinculadas a um amplo programa de reestruturação. A liderança da empresa argumentou que os avanços em IA generativa e em modelos de linguagem de grande escala estão transformando radicalmente a produtividade na engenharia de software, tornando abordagens tradicionais de codificação progressivamente obsoletas. A Livspace, plataforma de design de interiores sediada em Singapura, cortou 1.000 postos em sua transição para um modelo mais automatizado, com foco em serviços de design mais rápidos e personalizados.
O eBay eliminou 800 postos ao ampliar o uso de ferramentas de IA capazes de automatizar listagens de produtos, otimização de preços e atendimento ao cliente. O Pinterest confirmou cerca de 675 demissões, aproximadamente 15% de seu quadro, ao adotar o que seus executivos descrevem como uma “estratégia orientada por IA”. Os cortes geraram reações mistas: as ações da empresa recuaram após o anúncio, e parte dos usuários manifestou preocupação com o crescente volume de conteúdo gerado por IA na plataforma. Completam a lista ANGI Homeservices (350), Oracle (254) e MercadoLibre (119).
Em termos geográficos, Seattle desponta como o principal polo das demissões globais em 2026, com 16.590 postos afetados em empresas como Amazon e Microsoft. São Francisco aparece em segundo, com 9.395 cortes, seguida por Menlo Park, sede da Meta, com 1.500 reduções. Fora dos Estados Unidos, Sydney, Estocolmo e Veldhoven — sede da ASML, nos Países Baixos — figuram entre as cidades mais impactadas.
Para compreender melhor esse fenômeno, a equipe da RationalFX compilou dados de demissões a partir de múltiplas fontes verificadas, incluindo avisos WARN de diferentes estados americanos, além dos rastreadores TrueUp, TechCrunch e Layoffs.fyi, cobrindo anúncios realizados desde o início de 2026.
Os Estados Unidos concentram a maior parte dos cortes: 30.846 demissões, equivalentes a cerca de 68% do total global, distribuídas por 43 empresas americanas. Os maiores cortes partem da gigante do comércio eletrônico e computação em nuvem Amazon, da Meta de Mark Zuckerberg e da empresa de pagamentos e fintech Block.
A Austrália registrou 2.650 demissões, provenientes de apenas duas empresas: a desenvolvedora de software logístico WiseTech Global, com 2.000 cortes, e a operadora de telecomunicações Telstra, de Melbourne, com 650 postos afetados. Na Europa, Suécia (1.923), Países Baixos (1.700), Reino Unido (1.000), República Tcheca (250) e Alemanha (200) figuram entre os países mais impactados, com cortes concentrados nos setores de telecomunicações, semicondutores e games.
Na Ásia, 4.595 demissões foram registradas em vários países, com os maiores volumes em Israel (1.539), Índia (1.520) e Singapura (1.016). A região também concentra uma parcela significativa dos cortes diretamente relacionados à adoção de IA, especialmente em Israel e Singapura.
A Amazon anunciou 16.000 demissões em 2026, um dos maiores cortes individuais de sua história, após já ter eliminado quase 20.000 postos em 2025. A direção da empresa citou esforços para simplificar estruturas hierárquicas, acelerar decisões e aumentar a eficiência. Os cortes, no entanto, ocorrem em um contexto de receitas recordes: em 2025, a companhia faturou 716,9 bilhões de dólares, alta de 12% em relação ao ano anterior, com crescimento expressivo da divisão AWS, e segue com projeção de 200 bilhões de dólares em investimentos de capital apenas em 2026.
A fabricante austríaca de semicondutores e sensores ams OSRAM planeja cortar cerca de 2.000 postos como parte de um programa de reestruturação voltado à melhoria de rentabilidade, pressionada pela queda na demanda em alguns segmentos do mercado de semicondutores. A sueca Ericsson anunciou aproximadamente 1.900 demissões, com a maior parte concentrada no mercado doméstico, em meio a um mercado global de 5G ainda lento e à intensificação da concorrência. Já a holandesa ASML, fabricante de equipamentos para a produção de chips, eliminou cerca de 1.700 postos, aproximadamente 4% de seu quadro global, focando em funções gerenciais, de tecnologia e de TI, mesmo após registrar vendas e lucros recordes em 2025.
A Meta cortou aproximadamente 1.500 postos em sua divisão Reality Labs, responsável por headsets de realidade virtual e projetos relacionados ao metaverso, como parte de um redirecionamento estratégico para áreas de maior tração comercial, especialmente inteligência artificial.





