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ONU: Mais de 300 mil pessoas de 66 países são escravizadas pela indústria do cibercrime

Relatório aponta que pessoas forçadas a cometer fraudes online são obrigadas a gerar até R$ 50 mil por dia.

O escritório da Organização das Nações Unidas para direitos humanos divulgou nesta sexta, 20/2, um relatório que aponta a persistência de práticas que configuram tráfico de pessoas, servidão e escravidão em operações de golpes cibernéticos, notadamente no Sudeste Asiático.

De acordo com o documento, essas operações formaram uma das economias criminosas que mais crescem no mundo e se baseiam no recrutamento e na exploração de pessoas forçadas a cometer fraudes online sob ameaça, violência e coerção. Estimativas indicam que mais de 300 mil pessoas, oriundas de ao menos 66 países, foram traficadas para esses complexos, muitos deles com milhares ou até dezenas de milhares de trabalhadores.

O relatório constata que “o tratamento sofrido por indivíduos no contexto de operações fraudulentas é alarmante”, com base em entrevistas com sobreviventes originários de Bangladesh, China, Índia, Mianmar, Sri Lanka, África do Sul, Tailândia, Vietnã e Zimbábue. Eles foram traficados para centros de golpes no Camboja, na República Democrática Popular do Laos, em Mianmar, nas Filipinas e nos Emirados Árabes Unidos entre 2021 e 2025. O estudo também se fundamenta em entrevistas com policiais e agentes de fronteira, bem como com representantes da sociedade civil e outros indivíduos com conhecimento sobre tais operações.

Os sobreviventes relataram ter sido obrigados a aplicar golpes com criptomoedas, fraudes em apostas, esquemas de romance, falsificação de identidade e extorsão online. Muitos afirmaram que aceitaram as ofertas acreditando tratar-se de empregos legítimos, mas, ao chegar aos locais de trabalho, foram impedidos de sair.

Depoimentos descrevem jornadas de até 19 horas por dia, metas financeiras diárias impostas sob ameaça de espancamento e punições físicas. Um sobrevivente da Tailândia afirmou que os chefes exigiam a geração de 300 mil baht por dia (cerca de R$ 50 mil) por meio de golpes para evitar castigos ou a venda para outra empresa. Um cidadão do Sri Lanka relatou que quem não atingia as metas era submetido a longos períodos de imersão em recipientes com água, conhecidos como “prisões de água”. Assembleias matinais incluíam punições públicas a equipes com baixo desempenho.


A análise concluiu que as pessoas nessas condições atendem à definição internacional de vítimas de tráfico, independentemente de eventual consentimento inicial, já que a legislação internacional considera irrelevante o consentimento quando há engano, abuso de poder ou privação de liberdade. Em diversos casos, o relatório afirma que as condições também configuram escravidão ou servidão, especialmente quando há compra e venda de pessoas entre complexos.

O estudo buscou entender por que o recrutamento persiste mesmo após alertas internacionais. A investigação combinou mapeamento do ecossistema dos golpes com análise comportamental. Quase três quartos das vítimas afirmaram ter sido recrutadas por alguém de confiança, como amigos, familiares ou conhecidos. Em outros casos, as ofertas foram divulgadas em redes sociais com aparência de legitimidade.

Segundo o relatório, 79% dos sobreviventes disseram não saber da existência de complexos de golpes antes de serem traficados. Para 68%, o salário prometido foi o principal fator para aceitar a proposta, e 47% estavam desempregados ou subempregados no momento do recrutamento. Taxas cobradas das famílias para viabilizar a viagem variaram entre US$ 3 mil e US$ 100 mil.

A organização também apontou o uso crescente de tecnologias digitais e inteligência artificial para identificar e direcionar ofertas a pessoas em situação de vulnerabilidade financeira. Recrutadores frequentemente criam senso de urgência para limitar a verificação das informações.

A saída dos complexos não encerra necessariamente os abusos. O relatório registra que 68% dos sobreviventes enfrentaram penalidades oficiais após a libertação, incluindo detenções e acusações criminais relacionadas às atividades fraudulentas que foram obrigados a praticar. Normas internacionais, como o princípio da não punição, proíbem a responsabilização de vítimas por crimes cometidos como consequência direta do tráfico, mas muitos relataram não ter acesso a procedimentos adequados de identificação.

Além das consequências jurídicas, sobreviventes descreveram impactos físicos e psicológicos, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático, insônia e doenças associadas às condições insalubres nos complexos. Parte relatou retorno aos países de origem em situação de desemprego e endividamento. Mesmo assim, 70% afirmaram desejar migrar novamente em busca de trabalho.

O relatório também aponta indícios de corrupção e impunidade que permitem a continuidade das operações. Segundo relato de especialistas citados, atividades dessa escala não ocorreriam sem algum grau de conivência oficial. Restrições ao espaço cívico e a processos contra jornalistas independentes teriam dificultado investigações.

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