
O diretor de Políticas de Trabalho para Juventude do Ministério do Trabalho e Emprego, João Motta, aproveitou o Brasscom TecFórum Educação & Emprego, realizado nesta quarta, 27/8, em São Paulo, para chamar atenção do mercado de TICs para o descompasso entre as expectativas das empresas e a realidade da formação dos jovens que buscam o primeiro emprego.
Segundo Motta, muitas companhias ainda exigem de candidatos de 18 a 20 anos competências que levariam de três a cinco anos para serem desenvolvidas. “É pouco provável, ou mesmo impossível, que esses jovens possuam previamente essas habilidades, seja por falta de experiência ou pela ausência de conclusão do processo educacional. A educação tem etapas próprias, e as empresas precisam participar delas, oferecendo oportunidades de entrada durante a formação, para que o jovem una teoria e prática no ambiente de trabalho”, afirmou.
Ele destacou que já existem instrumentos legais consolidados, como a aprendizagem profissional e o estágio, mas que muitas vezes são mal compreendidos ou usados de forma inadequada. “O aprendiz deve ter seu papel, o estagiário o seu, e o júnior o seu. Se um estagiário desempenha funções estratégicas, já não está cumprindo o papel educacional. É preciso estruturar um plano de carreira: aprendiz, estágio, júnior, pleno. Esse é um investimento no futuro e demonstra confiança a médio e longo prazo”, disse.
Motta lembrou que o Brasil enfrenta um problema histórico na valorização do ensino técnico. Após um período de expansão, houve desvalorização ao longo da última década, o que reduziu a oferta e o interesse social nesse tipo de formação. “Tudo que discutimos hoje — graduações curtas, cursos técnicos, ensino tecnológico — já está previsto em lei desde 2008. O desafio não está apenas em mudar a legislação, mas em usar as ferramentas que já existem de forma adequada”, destacou.
Ele também reforçou que muitas empresas confundem a falta de profissionais experientes com ausência de talentos para posições de entrada. “Quando um RH reclama que falta gente, na maioria das vezes não é vaga de entrada que falta preencher, mas posições já qualificadas. As vagas de entrada servem para preparar o médio e longo prazo. Não podemos querer resolver problemas estruturais em seis meses contratando aprendizes ou estagiários”, afirmou.
O representante do MTE ainda alertou para os desafios sociais que impactam a permanência dos jovens no trabalho e na escola. Para ele, a baixa remuneração dos programas de aprendizagem, próxima de meio salário mínimo, faz com que muitos abandonem oportunidades. “Não é possível discutir carreira e longo prazo quando o jovem não tem garantidas suas necessidades básicas. Se um acréscimo de R$ 500 representa quase 60% do que ele recebe, isso pesa diretamente na decisão de continuar estudando ou trabalhando”, explicou.
Outro ponto crítico é o distanciamento entre empresas e instituições de ensino. Motta questionou quantas companhias dialogam regularmente com escolas técnicas e universidades para alinhar currículos às demandas reais. “As linguagens de programação variam, os conhecimentos mudam rápido. As empresas precisam planejar sucessão de competências ao longo do tempo e construir currículos em parceria com as instituições de ensino”, defendeu.
Por fim, o diretor lembrou que a educação básica não deve ser reduzida a formação de mão de obra. “A escola deve formar cidadãos plenos, capazes de transitar entre diferentes áreas e mudar de carreira ao longo da vida. O problema não está apenas em português ou matemática, mas em compreender contextos. Muitas vezes o jovem entende o texto, mas não percebe as nuances do ambiente corporativo, que ainda se apresenta de forma inacessível e repleta de jargões”, afirmou.
Para Motta, enfrentar o desafio de inserir os jovens no mercado exige realismo nas expectativas empresariais, valorização do ensino técnico, condições dignas de trabalho e maior articulação entre empresas, escolas e governo. “Se não fizermos esse movimento, continuaremos cobrando dos jovens habilidades que eles não têm como desenvolver sozinhos”, concluiu.