

O Brasil se prepara para uma mudança de paradigma na radiodifusão com a implementação da TV 3.0, e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), ao lado da Associação Brasileira de TVs e Rádios Legislativas (ASTRAL), já desenha as estratégias para essa nova era. Muito além de uma evolução na qualidade técnica de som e imagem, a TV 3.0 é encarada como um instrumento vital para aumentar a relevância social da comunicação pública, promovendo uma integração sem precedentes entre o sinal de televisão, a internet e o cidadão.
Para Gilvani Moletta, gerente executivo de engenharia da EBC, a televisão pública deve ocupar um lugar de protagonismo nesse processo, priorizando sua importância para a sociedade acima da própria tecnologia. “Hoje temos o desafio das redes sociais e a TV 3.0 traz tudo isso junto”, explica Moletta, destacando que a nova plataforma permitirá uma comunicação muito mais ágil e direta com o brasileiro. Segundo ele, a tarefa de gerir a comunicação tornou-se mais complexa do que na época em que se administrava apenas rádio e TV de forma isolada; agora, o movimento exige explorar novas formas de interação.
A TV 3.0 redefine a experiência do usuário ao organizar conteúdo, navegação e ergonomia em telas apropriadas, aprendendo com a lógica de escolha que o público desenvolveu no uso de celulares. Atualmente, a EBC adota uma estratégia de atuação em duas frentes: enquanto a TV Brasil mantém seu catálogo, acervo e rede nacional para o consumo presente, a empresa opera laboratórios de transmissão e recepção para experimentar o futuro, testando aplicações OTT (Over-the-top), navegação e integração com bases de dados.
Essa evolução tecnológica baseia-se em três realidades simultâneas: o broadcast tradicional (gratuito e de massa), a transmissão exclusiva via internet (para áreas sem sinal de torre) e o modelo híbrido (broadcast + internet). Essa interoperabilidade permite que a transmissão ao vivo seja conectada a conteúdos sob demanda, oferecendo recomendações contextuais durante a programação.
A expansão desse ecossistema também é acompanhada de perto pela ASTRAL (Associação Brasileira de TVs e Rádios Legislativas). Márcio Medeiros, secretário-geral da associação, ressalta que as emissoras legislativas são fontes primárias de informação pública, garantindo um acesso verificável, direto e plural ao que ocorre nos plenários e votações. Para ele, a TV 3.0 permitirá que essas emissoras deem um salto qualitativo: de apenas transmitir o fato para explicar o significado desse fato para a vida do cidadão. “Essa evolução técnica só faz sentido se fortalecer nosso papel como fonte primária de informação, nossa missão pública”, afirma.
Medeiros revela ainda a criação de um comitê com entes públicos para desenvolver uma plataforma comum que agregará conteúdos, serviços e um novo canal de comunicação. No entanto, ele pondera que as emissoras brasileiras partem de realidades financeiras distintas, sendo necessário apoio e financiamento para garantir que as TVs municipais, muitas vezes com menos recursos que as federais e estaduais, também possam realizar essa renovação tecnológica.
Apesar do otimismo, os obstáculos são reais. Moletta aponta desafios logísticos em grandes centros como São Paulo, onde a questão das torres de transmissão é crítica, além do aumento dos custos com energia elétrica e a necessidade de escala industrial para novos receptores. No campo humano, a transição exige a formação de profissionais “híbridos”, que dominem tanto a tecnologia de broadcast quanto o conhecimento de TI e segurança cibernética.
O objetivo final de ambas as instituições converge para um ponto central: transformar a tecnologia em mais acesso à informação e participação democrática, convertendo cada inovação técnica em efetiva relevância social para o país.





