
Transformar pontos de presença (PoPs) em data centers de borda (edge) poderia ser uma estratégia eficiente para descentralizar a infraestrutura e responder à demanda por baixa latência que a inferência de inteligência artificial generativa necessita. A visão foi defendida por Rodrigo Schuch, presidente da Associação Neo, em painel no AGC 2026, em São Paulo, nesta semana.
De acordo com ele, dos 100 mil PoPs, 4.280 são elegíveis a serem transformados em data center edge para disseminar os centros de processamento de dados pelo País. “Os hyperscalers vão continuar existindo, mas, para ser líder, precisa desta construção a quatro mãos”, disse, enfatizando que grandes infraestruturas de computação em nuvem, armazenamento e redes em escala massiva e global vão conviver — e serem complementadas — pelo processamento na borda, “porque a IA não pode ficar longe de onde está sendo demandada”.
Os investimentos para fazer a modernização dos PoPs para serem “micro data centers edge”, segundo o presidente da Neo, seria na casa de pouco mais de R$ 2 bilhões. “Saímos, em 2014, de quatro pontos de troca de tráfego para 38 PTTs em 2025, ou seja, a nossa rede de internet está descentralizada o que permite o processamento na ponta. Além disso, hoje, 70% dos data centers estão na região Sudeste, o que mostra uma concentração”, completou.
A construção do que Schuch chamou que grande cinturão de data centers edge requer uma política de Estado que siga existindo independentemente de quem esteja no poder. “O Brasil é hoje o terceiro país em conectividade — atrás da China e dos Estados Unidos —, mas, quando se fala em data centers somos 12º. Os países que querem dominar o mundo serão dominantes na questão dos dados”, justificou o presidente da Neo.
Uma das questões prioritárias a serem endereçadas é a tributação. Nesse sentido, tramita o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) cujo objetivo é atrair grandes investimentos em infraestrutura digital. “Da carga tributária, um terço é federal e os outros dois terços são estaduais. O Redata não morreu, está lá para ser votado no Senado, mas a questão do ICMS é importante também para resolver os outros dois terços da carga tributária”, destacou Affonso Nina, presidente da Brasscom, também presente no painel.
A falta de processamento local está aumentando o déficit da balança comercial do setor de tecnologia da informação e comunicação. “Tínhamos um déficit de US$ 3 bilhões em 21 e subiu para US$ 8 bilhões em 25. Estamos dependendo cada vez mais do processamento sendo feito fora do Brasil”, alertou Nina. “Temos espaço, infraestrutura de conectividade, geração de energia limpa e renovável, mas esbarramos em carga tributária que faz data center no Brasil ser 30% mais caro aqui. O grande gargalo hoje é a questão tributária que encarece o capital investido nos data centers”, assinalou.
Diante desse cenário, Evandro Varonil, conselheiro da Abrint, defendeu que os provedores de internet, que foram agentes da inclusão digital, atuem como agentes da transformação da infraestrutura digital. “Acredito que hoje já somos referência não apenas na América Latina como no mundo. E o desafio é como seguir sendo esta referência e como não perder espaço, principalmente, quando falamos de data centers e inteligência artificial”, disse.





