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Telefónica: UE precisa de hyperscaler com sotaque europeu

“Se a Europa quer ser soberana, vai precisar de produtos digitais”, afirmou o CEO da operadora espanhola, Marc Murtra.

A Europa precisa ganhar escala, simplificar regulações e acelerar decisões para não ficar para trás na corrida tecnológica global. O recado foi dado pelo CEO da Telefónica, Marc Murtra, durante painel no Mobile World Congress 2026, nesta segunda, 2/3, em Barcelona. Ao lado de Tim Hötges, da Deutsche Telekom, e Jean-François Fallacher, da Eutelsat, o executivo defendeu a criação de um “hyperscaler com sotaque europeu” como parte central de uma estratégia de soberania digital.

“Se a Europa quer ser soberana, vai precisar de produtos digitais”, afirmou Murtra. Segundo ele, o continente necessita de três pilares para recuperar competitividade: escala, regulação pró-tecnologia e velocidade. “Precisamos de empresas maiores, que assumam mais riscos, atraiam melhores talentos e façam investimentos tecnológicos mais profundos. Estamos vivendo uma era em que qualquer produto tecnológico exige investimentos muito intensos.”

Murtra criticou o ritmo das mudanças regulatórias. “Estamos vendo mudanças sísmicas e profundas na tecnologia. Estou há 30 anos na indústria e não acho que tenha visto uma mudança tão profunda nos últimos três meses com a IA”, disse. “Mas, no que diz respeito à regulação, não vimos nenhuma mudança nos últimos 12 meses. No ano passado já dizíamos que a regulação tinha 15 anos.”

Para o CEO da Telefónica, a soberania digital europeia passa por dois blocos de produtos. O primeiro envolve tecnologias complexas e caras de replicar, como cibersegurança, softwares de gestão de hyperscalers e inteligência artificial. “Precisamos de hyperscalers, mas não estou falando do hardware ou da infraestrutura, e sim do software que os gerencia”, afirmou. “Se usamos software e tecnologia de terceiros, essa tecnologia pode ser induzida a fazer coisas.”

Ele citou ainda a necessidade de desenvolver produtos próprios de IA. “Se alguém acha que nós, europeus, teremos acesso garantido aos produtos de IA mais avançados daqui a dez anos para sustentar, por exemplo, a indústria farmacêutica ou industrial, estamos sendo ingênuos.”


Murtra também destacou que, internamente, a Telefónica está deixando tecnologias obsoletas e reorganizando a companhia. “Isso significa abandonar unidades de negócios obsoletas e focar em competências do futuro.” Segundo ele, a organização precisa se tornar mais vertical e assumir “riscos calculados”, ciente de que parte das decisões pode falhar.

A frustração com o ambiente regulatório europeu foi reforçada por Tim Hötges, CEO da Deutsche Telekom. “Um ano depois, em Bruxelas, nada melhorou”, afirmou. “Nossa indústria está investindo 2% menos na Europa do que no ano anterior.” Para ele, o continente continua perdendo espaço para Estados Unidos e China. “A Europa está ficando para trás, e isso terá consequências.”

Hötges criticou o aumento de exigências regulatórias e a manutenção da fragmentação institucional. “Falava-se em eliminar 50% da burocracia, mas nada foi deletado. Pelo contrário, temos ainda mais regulação”, disse, acrescentando que não houve redução no número de órgãos reguladores com os quais as teles precisam lidar diariamente.

No segmento espacial, Jean-François Fallacher destacou o papel da Eutelsat como alternativa europeia em órbita baixa. A companhia adquiriu há três anos a constelação OneWeb e se posiciona como concorrente direta da Starlink. “Somos a constelação europeia soberana”, afirmou. “Existem apenas duas constelações operacionais no mundo hoje.”

Segundo ele, a empresa levantou recentemente 1,45 bilhão de euros para reforçar capital e encomendou novos satélites à Airbus, ampliando sua constelação para 650 unidades. Fallacher citou ainda o projeto IRIS², financiado pela Comissão Europeia, como parte da estratégia para manter a Europa “em um mundo de gigantes”.

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