A concentração no SCM chega aos ISPs de menor porte
A lógica que impulsiona o movimento é a mesma responsável pela disseminação de grandes data centers no país e no exterior.

Por Fabio Vianna Coelho (*)
Alguns M&As que envolviam prestadoras de SCM num passado recente foram anunciados como estopins da aguardada concentração do segmento, algo que não se concretizou. Ao invés de desencadearem uma onda de iniciativas semelhantes entre outros provedores, acabavam por se mostrar operações pontuais que pouco alteraram a configuração do mercado. No entanto, o que se observa desde o final do ano passado parece ser um movimento consistente que, como tal, cumpre, pela primeira vez, todo o ciclo, partindo do topo para ser replicado também na base da pirâmide.
Em março, a America Movil, dona da Claro, desembolsou R$ 4 bilhões pela Desktop, adicionando à sua carteira 1,2 milhão de conexões paulistas. No final de 2025, a Zaaz Telecom – que, como a DirecTV Latin America e a Sky Brasil, pertence ao grupo Werthein – adquiriu a Proxxima e, em março, a Online Telecom, o que elevou sua base para 600 mil clientes de banda larga fixa.
Empresas médias também compõem esse cenário, por exemplo, com a compra de 54,3 mil clientes da Onitel pela Nio, operação de varejo da Oi Fibra, e, também em julho, de 24 mil acessos da iSuper, no Paraná, pela Unifique. Esta, atenta aos de menor porte, adquiriu, em maio, a G9 Telecom, que possuía 3 mil clientes, assim como a Valenet, incorporada, mês passado, pela MhNet.
O cenário macroeconômico pouco se alterou nos últimos anos e, quanto ao SCM, desde a pandemia, quando a demanda por novas conexões explodiu, milhares de ISPs passaram a compor um mercado onde mais de 90% das empresas dispõem de menos de 5 mil acessos. Qualquer segmento tão pulverizado sempre atrai investidores e motiva grandes grupos a buscar crescimento por meio de aquisições. Sendo assim, por que a concentração na banda larga fixa só agora aparenta ser consistente?
A lógica que impulsiona o movimento é a mesma responsável pela disseminação de grandes data centers no país e no exterior. A Internet segue sendo cada vez mais utilizada, o que se dá, não por meio de um crescimento relevante do número de novas conexões, mas pelo aumento do uso das já existentes, que continuam incorporando novas funções.
Se a inteligência artificial, por si só, já era mais do que relevante nesse sentido, cresceu também o consumo, via web, do que, décadas atrás, tornou a TV o meio de comunicação hegemônico. Além do streaming, há anos consolidado como principal meio de acesso a filmes e séries, a web incorporou parte relevante da audiência do esporte mais popular do mundo, particularmente no Brasil, como ocorreu durante a copa recentemente encerrada.
Esses novos usos geram novas demandas, que serão atendidas por empresas bem-estruturadas, capazes de fornecer conexões mais estáveis, melhor qualidade na transmissão de dados, portfólios amplos e que, a partir do domínio exercido em seus mercados, dispõem de preços competitivos. No cenário que começa a se desenhar, não há mais espaço para os que se limitam à oferta de acesso à Internet.
Mas, como as conexões viabilizam o fornecimento de outros serviços, mesmo os provedores de menor porte interessem aos que buscam liderança nos territórios em que atuam. Não serão todos, porém, que serão incorporados. O que ocorre hoje e deve se intensificar adiante é a saída de muitos deles do mercado, o que não tem como causa apenas a concentração.
Publicado em junho de 2025, o Plano de Ação para Combate à Concorrência Desleal e para a Regularização da Prestação do Serviço de Banda Larga Fixa marca uma nova postura da Anatel com os que não seguem as normas que regem suas atividades. Nesse sentido, a ação mais efetiva foi o fechamento de 5 mil ISPs clandestinos, algo que pode se estender a outras empresas.
Conforme o superintendente de outorgas da agência, Vinícius Caram, em junho último, 11,5 mil dos 19,7 mil provedores autorizados não haviam dado qualquer sinalização de que atenderiam às demandas da Feninfra quanto à comprovação de regularidade com obrigações fiscais e trabalhistas. Segundo ele, os faltosos poderiam ser alvo de processos administrativos e até de cassação.
Dado o encerramento das atividades de milhares de ISPs que não providenciaram suas outorgas – a mais importante determinação trazida pelo plano –, não seria surpreendente se a agência cumprisse tal ameaça e a estendesse aos que não observam outras determinações. Um exemplo é a coleta sobre postes, encerrada em março, que consistia, basicamente, no envio dos contratos firmados com distribuidoras de energia para a instalação de redes aéreas.
A concentração em curso pode ser, por enquanto, territorialmente limitada, mas, onde ocorre, inviabiliza a competição de ISPs de menor porte com as empresas que surgem exercendo domínio em seus mercados. Nesses casos, a venda torna-se a melhor opção. Para tanto, porém, é necessário atender a alguns requisitos. Cada vez mais uma questão de vida ou morte perante à Anatel, o aspecto regulatório passa a ser determinante também para a viabilização do interesse de potenciais investidores.
Quem quer comprar uma empresa verifica, antes da realização de qualquer oferta, a existência de passivos, por exemplo, fiscais e/ou trabalhistas. Nesse sentido, análises mais profundas seriam desnecessárias entre os que não obtiveram o atesto da Feninfra – sendo que alguns deles poderão ser fechados, como sinalizou o regulador.
Mesmo que tenha cumprido todos os ciclos que comprovam sua consistência, o movimento de concentração hoje observado pode, como ocorreu vezes passadas, perder força antes de mudar as configurações do mercado. Porém, mesmo que isso se repita e que o surgimento de novos players não se dê em número suficiente para impor um novo nível de profissionalismo a provedores de menor porte, ele deve ser adotado pelos que pretendem permanecer no mercado. Se a mudança de comportamento não for imposta por M&As, certamente o será pela Anatel.
(*) Fabio Vianna Coelho é sócio da VianaTel, consultoria especializada na regularização de provedores de Internet, e do RadiusNet, software de gestão para ISPs.
