Opinião

A indústria está cheia de robôs e cada vez mais precisa de gente

A pergunta mais importante para a indústria talvez não seja quantos robôs uma empresa consegue instalar, mas quem será capaz de fazer todos esses sistemas funcionarem juntos.

Por Bruno de Freitas Gai*

Existe uma cena que se tornou quase obrigatória quando se fala sobre o futuro da indústria: uma fábrica cheia de braços robóticos trabalhando em perfeita sincronia, enquanto os seres humanos parecem ter desaparecido da linha de produção. A imagem é poderosa, mas incompleta.

O robô é a parte mais visível de uma transformação muito maior. Por trás de cada movimento aparentemente simples existe uma cadeia de decisões, sistemas, softwares, sensores, protocolos, ferramentas, parâmetros de segurança e, principalmente, conhecimento técnico.

Por isso, a pergunta mais importante para a indústria talvez não seja quantos robôs uma empresa consegue instalar, mas quem será capaz de fazer todos esses sistemas funcionarem juntos.

Os números ajudam a dimensionar a velocidade dessa transformação.


Segundo a International Federation of Robotics (IFR), 542 mil robôs industriais foram instalados no mundo em 2024, mais que o dobro do registrado dez anos antes. Foi também o quarto ano consecutivo em que as instalações anuais ultrapassaram a marca de 500 mil unidades. A Ásia concentrou 74% das novas instalações, seguida pela Europa, com 16%, e pelas Américas, com 9%.

Esses números mudam a natureza da discussão, a questão já não é mais se a automação chegará às fábricas, ela já está lá, o desafio agora é fazer essa automação funcionar de maneira integrada, segura e eficiente.

Na prática, isso significa definir onde o robô será instalado, projetar ferramentas, simular movimentos, validar trajetórias, integrar sensores, estabelecer sistemas de segurança, programar equipamentos, testar ciclos, corrigir falhas e colocar a célula em funcionamento.

E essa necessidade não se restringe à robótica. Ela faz parte de uma transformação mais ampla do perfil profissional exigido pela indústria. O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria, estima que o Brasil precisará formar ou qualificar cerca de 14 milhões de trabalhadores no período. Desse total, 2,2 milhões correspondem à formação inicial, enquanto 11,8 milhões estão relacionados a treinamento e desenvolvimento de profissionais que já estão no mercado.

O dado é especialmente significativo porque mostra que a maior parte da demanda não está apenas em preparar pessoas que ainda vão entrar no mercado. Está em atualizar quem já trabalha.

Essa necessidade de atualização aparece também em escala global. O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, aponta que 63% dos empregadores pesquisados consideram as lacunas de qualificação a principal barreira para a transformação dos negócios. O estudo estima ainda que 39% das competências atualmente utilizadas no trabalho deverão mudar ou se tornar menos relevantes até 2030.

Minha leitura é de que a tecnologia não está apenas criando novas máquinas, mas sim alterando aquilo que se espera das pessoas que trabalham ao lado delas.

A máquina executa determinadas tarefas com velocidade, precisão e repetibilidade. O profissional precisa compreender o processo, tomar decisões, resolver problemas, interpretar informações e fazer a tecnologia funcionar dentro de um contexto real.

Em 2025, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou que uma em cada quatro pessoas no mundo trabalha em uma ocupação com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. Mas a entidade ressalta que, na maioria dos casos, o cenário mais provável é de transformação das ocupações, e não de eliminação completa dos empregos, justamente porque a participação humana continua necessária em muitas tarefas.

É essa capacidade de conectar diferentes conhecimentos que transforma um programador de robôs em um profissional capaz de atuar na automação de uma fábrica.

O próprio World Economic Forum aponta que, além das competências tecnológicas, habilidades como pensamento analítico, criatividade, resiliência, flexibilidade, agilidade e aprendizagem con􀆡nua continuarão ganhando importância nos próximos anos.

No fundo, é uma combinação que resume bem o novo perfil profissional da indústria: conhecimento técnico para entender a máquina e visão sistêmica para entender o processo.

*Bruno de Freitas Gai é especialista na área de Robótica, Mecatrônica e Automação, com ênfase em Programação de Robôs Industriais

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