
Recente sondagem realizada pela Abinee apontou que 47% das indústrias do setor eletroeletrônico já sentem pressões nos custos de componentes e matérias-primas para a produção. Esse foi o terceiro crescimento consecutivo no percentual de empresas impactadas, que estava em 23% em novembro de 2025, atingindo em fevereiro o maior patamar dos últimos 20 meses.
Os motivos para os sucessivos aumentos dos insumos variam entre si e o movimento também já se reflete nos bens finais fabricados pela indústria elétrica e eletrônica. O caso mais proeminente é o de memórias. Desde dezembro de 2024, grandes fornecedores renegociam contratos com empresas brasileiras. Os reajustes podem chegar a 100% na cadeia, com estimativa de repasse de cerca de 30% no preço final de equipamentos como notebooks, desktops, celulares e TVs ficam mais caros, o que pode frear as vendas.
“A situação atual é considerada mais grave do que a vivida no auge da Covid-19. Na pandemia, o problema foi um desajuste temporário nas cadeias de fornecimento”, diz o presidente executivo da Abinee, Humberto Barbato. Agora, o que puxa a crise é o surgimento explosivo de uma demanda nova: data centers voltados para inteligência artificial. “Essa pressão deve se manter forte até 2028”, afirma. Em contrapartida, a resposta dos fabricantes de semicondutores é lenta em função do volume de investimentos e complexidade produtiva. A oferta não tem acompanhado o mesmo ritmo da demanda”, salienta.
As indústrias também têm sentido a falta de componentes e matérias-primas no mercado, embora essa indicação ainda seja pequena, passando de 7% para 8% no levantamento de fevereiro em relação à pesquisa anterior. No caso específico de semicondutores, 13% das entrevistadas que utilizam estes itens em sua produção apontaram dificuldades na sua aquisição. Este resultado foi 5 pontos percentuais acima dos 8% observados na pesquisa anterior.
Além das memórias, as empresas também estão observando elevação de custos de outros insumos como ouro, prata, cobre, aço, alumínio e plástico, com efeitos pulverizados em diversas cadeias produtivas a depender do grau de utilização de cada item. Segundo dados da Bolsa de Londres, o preço em reais do cobre cresceu 16,8% em março na comparação com o mesmo mês de 2025, enquanto o alumínio registrou alta de 15,3% em período semelhante. Esse acréscimo foi amenizado pela valorização do Real frente ao dólar.
No caso de ouro e prata, que têm atingido valores recordes, o aumento é decorrente da procura por esses metais como ativos de proteção em um cenário de tensões geopolíticas, desvalorização cambial e políticas econômicas incertas. O caso de plástico está diretamente relacionado à escalada do petróleo desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Segundo dados da Energy Information Administration – EIA, o preço do barril de Petróleo Brent chegou a ultrapassar US$ 120, com crescimento de 46% somente no mês de março em relação a fevereiro. Esse movimento está se refletindo na disparada dos preços dos polímeros e das resinas plásticas, que já superam 70%.
“Ao mesmo tempo, esta situação também está pressionando os combustíveis, com efeitos nos preços de fretes, adicionando gargalos logísticos ao quadro já complicado”, acrescenta Barbato. Ele afirma que o cenário é de inflação generalizada mundial, com impactos na produção e no faturamento das empresas, nas vendas e no poder de compra da população, além de efeitos na política econômica interna, retardando o processo de redução da taxa de juros. “O resultado final pode ser o desempenho do PIB ainda menor do que o previsto”, conclui.





