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“Vivemos um tempo de imediatismo das telas”, adverte especialista

A relação entre inteligência artificial, comportamento humano e capacidade crítica foi o eixo central da palestra de abertura do Tech Gov Fórum ES 2026, realizada nesta terça-feira, em Vitória. Com o tema “IA & Letramento: Inteligência Humana para a Curadoria dos Dados”, o professor de pós-graduação e gestor de RH da Summit, Guto Niche, provocou reflexões sobre os impactos da aceleração digital na forma como as pessoas aprendem, trabalham e tomam decisões.

Durante a apresentação, o palestrante defendeu que o debate sobre inovação e inteligência artificial não pode se restringir ao universo tecnológico e algorítmico. Segundo ele, compreender o cenário atual exige discutir a relação da sociedade com o tempo, a ansiedade e o comportamento humano diante da cultura digital.

Como exemplo, Niche comparou hábitos do passado com a intolerância contemporânea à espera. Ele lembrou que gerações anteriores rebobinavam fitas cassete com canetas e fitas de vídeo antes de devolvê-las às locadoras, enquanto hoje muitos usuários se irritam quando plataformas de streaming demoram alguns segundos para carregar um conteúdo.

Para o especialista, a sociedade vive “o tempo da excitação”, marcado pelo imediatismo das telas, das vitrines digitais e da necessidade constante de respostas rápidas. Esse ritmo acelerado, segundo ele, afeta diretamente a saúde mental e o ambiente corporativo, resultando em entregas frágeis e decisões pouco maduras, inclusive no tratamento de dados.

“Há muita gente com ferramentas preditivas nas mãos tomando péssimas decisões”, afirmou. Na avaliação do palestrante, o problema não está apenas na tecnologia, mas na incapacidade de interpretar criticamente as informações produzidas por ela.


Ao abordar o conceito de modelo mental, Niche explicou que a forma como cada indivíduo enxerga o mundo é determinada pelas experiências vividas e pela capacidade de reflexão. Para ele, o século XXI é marcado por pessoas cada vez menos reflexivas, incapazes de desacelerar para revisar experiências e questionar convicções.

O palestrante também associou esse cenário ao aumento da intolerância nas relações humanas, o que, segundo ele, compromete processos de colaboração e inovação dentro das organizações. “É impossível inovar com cabeças fechadas ou pessoas incapazes de questionar o que aprenderam ao longo da vida”, destacou.

Durante a palestra, Niche criticou o foco excessivo das empresas em ferramentas, metodologias e tecnologias, sem o mesmo investimento no desenvolvimento humano. Segundo ele, organizações são formadas por indivíduos e, por isso, o sucesso corporativo depende diretamente da capacidade crítica e cognitiva das pessoas.

Ele também apontou falhas estruturais na educação tradicional, que, em sua visão, prioriza respostas automáticas a estímulos — como vestibulares e exames — em detrimento da reflexão e da construção de sentido. “O problema da inovação começa na infância, porque ensinamos crianças a reagir a estímulos de conhecimento, não a refletir”, afirmou.

Outro ponto abordado foi a transformação das relações sociais no ambiente digital. De acordo com o palestrante, a vida contemporânea criou múltiplas “personas”, nas quais convivem simultaneamente a presença física e a presença virtual. Para ele, a vida digital não é falsa, mas uma dimensão real da experiência humana.

Niche observou ainda que o uso excessivo das redes sociais tem provocado uma falsa sensação de intelectualização. Segundo ele, o consumo contínuo de vídeos curtos e conteúdos rápidos compromete a capacidade de aprofundamento cognitivo e interpretação crítica. “Conhecimento não é informação”, ressaltou.

Na análise do professor, a expansão das ferramentas de inteligência artificial exige, antes de tudo, letramento. Ele argumentou que não basta disponibilizar modelos preditivos ou sistemas avançados para profissionais que não possuem capacidade de leitura e interpretação de dados.

Ao encerrar a palestra, o especialista defendeu que o principal desafio das empresas e instituições não é apenas tecnológico, mas existencial. Para ele, o mercado precisa reconhecer as mudanças cognitivas e comportamentais provocadas pela transformação digital e adaptar suas metodologias às novas realidades humanas. “Precisamos começar a encarar as realidades humanas dentro do trabalho”, concluiu.

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