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TV 3.0: Brasil tem tudo para unir smartphone à TV aberta

Especialistas apresentam modelos de integração entre broadcast e redes móveis, que passam a atuar de forma complementar. Brasil, agora, precisa definir que modelo vai usar.

O crescimento acelerado do consumo de vídeo nos smartphones está abrindo uma nova frente para a televisão aberta, e experiências internacionais dão a pista de caminhos que o Brasil poderá seguir na evolução da TV 3.0. O tema esteve no centro do painel “TV 3.0 no Bolso: O Futuro da TV Aberta e Gratuita nos Smartphones”, realizado no SET Expo 2026.

Na abertura da sessão, o mediador Carlos Fini, membro do conselho da SET e consultor da CF Tecnologia e Assessoria, trouxe números que indicam o imenso potencial do mercado brasileiro de TV aberta no celular. Por aqui, são entre 249 milhões e 272 milhões de smartphones ativos, enquanto o número de aparelhos de TV em uso está estimado em cerca de 80 milhões. “É mais do dobro. E o potencial aumenta quando consideramos que 99% do acesso diário à internet e ao conteúdo digital no Brasil ocorre pelo smartphone – e que o brasileiro passa, em média, 1 hora e 24 minutos por dia assistindo a vídeos nesses dispositivos”, afirmou.

Esse cenário coloca em discussão uma arquitetura na qual broadcast e redes móveis deixem de ser excludentes e passem a atuar de forma complementar. David Starks, líder de desenvolvimento técnico da AdCore Local, apresentou o conceito de Broadcast-to-Everything (B2X) e a experiência do Direct-to-Mobile (D2M) como possibilidades para essa evolução. A lógica é utilizar o broadcast para distribuir conteúdos que atendem simultaneamente a grandes audiências, enquanto as redes IP ficam responsáveis pela personalização e pela interação. Em vez de disputar espaço com as redes móveis, a TV aberta poderia funcionar como uma camada complementar de distribuição, reduzindo a pressão sobre as redes celulares nos momentos de maior demanda.

A experiência da Índia também foi assunto do painel. Ela foi apresentada como um dos laboratórios para esse modelo. Seshadri Venkiteshwaran, da Freestream Technology, mostrou o projeto D2M indiano, desenvolvido sobre o ATSC 3.0, diante de um crescimento expressivo do consumo de dados móveis. O tráfego médio mensal por assinante passou de 0,26 GB em 2015 para 24,2 GB em 2023 e poderá chegar a 60 GB em 2030.

A proposta indiana é utilizar a transmissão terrestre para entregar conteúdo simultaneamente a grandes volumes de usuários, sem que o aumento da audiência provoque congestionamento. A previsão é que o D2M entre em operação plena no país em 2027, com aplicações que vão de esportes e entretenimento a educação rural, alertas de emergência e distribuição de dados.

Na Europa, outro caminho está sendo construído. Graziano Casale, diretor de Vendas Técnicas para Distribuição de Broadcast da Rohde & Schwarz, apresentou a força-tarefa formada em 2024 por empresas de radiodifusão, produtores de conteúdo, reguladores e fabricantes de nove países para desenvolver o Broadcast 5G.

O grupo deve alcançar uma cobertura de cerca de 360 milhões de habitantes, aproximadamente 80% da população da União Europeia, e trabalha com a expectativa de lançar serviços comerciais no primeiro trimestre de 2028. A arquitetura Direct-to-Many (D2M) apresentada utiliza um único sinal para atender simultaneamente os usuários em uma determinada área, mantendo a capacidade de distribuição mesmo com o crescimento da audiência.

As experiências internacionais, portanto, não aparecem como modelos prontos a serem simplesmente replicados, mas como referências para as escolhas que o Brasil terá de fazer na próxima etapa da TV 3.0. Entre as possibilidades discutidas estão arquiteturas como BCN (Broadcast Core Network), que permite incorporar recursos de IP à infraestrutura de broadcast, e B2X, integração com redes 5G e 6G, desenvolvimento de receptores de baixo consumo e modelos de compartilhamento de infraestrutura entre radiodifusores e operadoras. O avanço também dependerá de testes, disponibilidade de chipsets e dispositivos, desenvolvimento de aplicativos, certificações e definição de modelos de negócio, segundo os especialistas.

Com uma projeção de mais de 300 milhões de dispositivos móveis até 2030, o Brasil tem escala suficiente para transformar o smartphone em uma nova frente para a TV aberta. A questão, agora, é definir qual combinação de tecnologias e modelos de distribuição será mais adequada ao mercado brasileiro. O painel mostrou que Índia e Europa já estão experimentando respostas diferentes para esse desafio. Para o Brasil, a TV 3.0 abre a possibilidade de construir seu próprio caminho, aproveitando a experiência acumulada na implantação do padrão e a convergência entre broadcast, internet e redes móveis.

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