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Equilíbrio entre inovação e risco desafia os meios de pagamentos

O caminho que transformou o Brasil em referência global em pagamentos é o resultado de uma construção contínua de cinco décadas, e não de um salto repentino. Impulsionada pela escala da tecnologia e pela necessidade de superar restrições severas e períodos de hiperinflação, a infraestrutura que hoje parece natural foi erguida por profissionais em um cenário de urgência.

Ao abrir o painel, Maurício Minas, do Bradesco e Febraban, lembrou que o marco inicial dessa trajetória ocorreu em 1956, com o primeiro brasileiro a portar um cartão de crédito, cuja anuidade e taxa de inscrição eram pagas em dólares e sem a facilidade de parcelamento. Entre a década de 1970 e o auge inflacionário, o cartão de crédito e o crédito se consolidaram como realidade, exigindo soluções criativas de sobrevivência.

Para manter o produto de pé em meio às dificuldades de funding, o setor alterou o prazo de liquidação para os estabelecimentos para 30 dias. Paralelamente, nasceu o parcelamento sem juros — desenvolvido inicialmente para combater o cheque pré-datado, impulsionado por inovações como o cheque com limite da Fininvest.

Com a abertura do mercado, as empresas de adquirência perceberam que apenas a redução de preços não garantia a sobrevivência, exigindo a criação de propostas de valor robustas. Como destacou Claudio Yamaguti, ex-presidente da Redecard e sócio-fundador e conselheiro da Afinz, a estratégia envolveu a renovação do parque tecnológico com novas máquinas POS capazes de ir até a mão do consumidor — como nos restaurantes, onde ficavam com os garçons —, além da união com fintechs e startups para embutir programas de fidelidade diretamente nos terminais, unindo preço, infraestrutura e experiência.

Outro momento decisivo dessa evolução foi a criação da bandeira Elo, gerada pela transição de mercado após a abertura de capital da Visanet e a saída da Visa da sociedade. Jair Delgado Scalco, sócio-administrador da Construtora Bacaba e que presidiu a Elo na criação, pesquisas apontaram para o nome ideal e se formou um grupo estruturado para capturar transações com uma bandeira e identidade genuinamente brasileiras.


Em paralelo, a tecnologia de pagamento automático de pedágio por tags levou cerca de duas décadas para se consolidar, enfrentando desafios de regulação e exigindo alta confiança entre as partes, um histórico de cooperação e competição que encontra paralelos diretos na implantação do Pix.

A análise do crédito também revela profundas transformações. O modelo puramente relacional de bairro, baseado no histórico familiar e em consultas rudimentares como o SPC na década de 1950, evoluiu para o big data, sistemas integrados e o open finance, como apontou Tadeu Silva, presidente da Acrefi.

Hoje, a tecnologia permite compreender o cliente de ponta a ponta, oferecendo maior assertividade para o varejo e os bancos. Contudo, os especialistas alertaram que a ampla inclusão financeira do passado recente veio acompanhada de excessos na oferta de crédito para mercados ainda não maduros, tornando vital focar na sustentabilidade de longo prazo com o suporte de dados mais refinados.

Silva, da Acrefi, assinalou que a bancarização levou à inclusão financeira grande, mas ponderou que a inclusão não foi de qualidade. “Houve excesso de oferta para um mercado que não está maduro no sentido de tomar crédito. Agora, é olhar para frente o crédito com maior consciência e pensar na sustentabilidade a longo prazo. Open finance vai ajudar nisso ficou muito fácil”, defendeu.

Para o futuro, o equilíbrio entre inovação e risco exige uma visão ambidestra e forte capital intelectual, enquanto a infraestrutura permanece como fator central de competitividade. Decisões estratégicas sobre quando desenvolver soluções próprias ou compartilhar redes comuns continuam definindo o mercado. Com marcos sólidos como o Pix, avanços em open finance e incursões na tokenização, o Brasil superou as limitações tecnológicas, mas ainda enfrenta desafios importantes, como a internacionalização pouco integrada dos sistemas de pagamento, a dependência tradicional do SWIFT e a urgência de ampliar o letramento financeiro da sociedade. No horizonte, o uso de ativos digitais já começa a desenhar um cenário de desintermediação bancária, ditando o ritmo das próximas rupturas no setor.

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