
O Brasil ocupa a 53ª posição entre 139 economias no Global Innovation Index 2026, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO). É uma das principais referências internacionais para acompanhar a capacidade de inovação das economias, avaliando 139 países a partir de indicadores ligados a instituições, capital humano, pesquisa, infraestrutura, sofisticação de mercado, ambiente empresarial e resultados de conhecimento e tecnologia. Apesar de indicar uma posição em um ranking, o GII ajuda a mostrar onde cada país construiu vantagens, onde ainda encontra gargalos e como consegue transformar recursos, pesquisa e investimento em inovação efetiva.
Em relação a 2025, quando estava em 52º lugar, o país recuou uma posição mas a médio prazo, porém, a leitura é diferente, no qual em 2019 o Brasil estava em 66º e acumulou ganho de 13 posições até 2026. O melhor resultado recente veio em 2023, com o 49º lugar, seguido por 50º em 2024, 52º em 2025 e 53º neste ano. A própria WIPO recomenda cautela nas comparações anuais, porque mudanças metodológicas e disponibilidade de dados podem afetar as posições.
Mesmo com o recuo anual, o Brasil preserva ativos relevantes, aparecendo em 8º lugar em tamanho do mercado doméstico e em atividade de marcas, 13º em pagamentos de propriedade intelectual, 16º em venture capital de estágio avançado e 23º em investidores corporativos em pesquisa e desenvolvimento. São Paulo permanece entre os principais clusters globais de inovação, na 49ª posição. Para Igor Drudi, CEO da DRIN Inovação, “o Brasil já tem mercado, ciência, capital, startups e bons polos de tecnologia. O desafio está em fazer essas partes conversarem melhor e transformar essa capacidade em produtividade, escala e resultado econômico”.
Os gargalos ajudam a explicar por que essa base ainda não se traduz de forma mais ampla na economia. O Brasil está em 129º lugar em ambiente de negócios, 101º na formação de graduados em ciência e engenharia e 94º em crescimento da produtividade do trabalho. O P&D realizado pelas empresas aparece em 36º. “O ganho acumulado desde 2019 é relevante, mas os últimos resultados mostram que não existe avanço automático. Quando produtividade, ambiente de negócios e formação técnica continuam muito atrás, o país perde velocidade mesmo tendo bons ativos de inovação”, avalia Drudi.

Essa tensão aparece também na leitura global do relatório, já que em 2025, as publicações científicas cresceram 6,9% e o valor investido em venture capital aumentou 27,9%, enquanto o número de operações caiu 1,4%. A concentração ficou ainda mais evidente com a inteligência artificial: ela respondeu por 53% do valor global de venture capital em 2025 e por 77% no primeiro semestre de 2026. O relatório também destaca a expansão da deep science, com mais de 30 mil startups criadas desde 2000 e avaliação conjunta estimada em US$ 7,6 trilhões. Na América Latina, porém, 72% das startups intensivas em ciência permanecem na fase seed e apenas 19% chegam à Série A.
Para Drudi, esse ponto é particularmente importante para economias de renda média. “Quando a WIPO mostra que o próximo salto depende de pesquisa empresarial, conexão entre universidades e empresas e capacidade de levar tecnologia ao mercado, ela toca exatamente no ponto em que o Brasil ainda precisa avançar.” O relatório aponta que as economias que mais se aproximam dos líderes conseguem combinar produção científica, P&D empresarial, propriedade intelectual, financiamento e capacidade de transformar conhecimento em produtos, empresas e produtividade.
O Brasil segue como a única economia da América Latina e Caribe classificada pela WIPO como innovation overperformer pelo sexto ano consecutivo, desempenho acima do esperado para seu nível de desenvolvimento. Isso ajuda a colocar o recuo de 2026 em perspectiva: o país mantém uma trajetória estrutural melhor do que a observada no início da década, mas perdeu posições desde o pico de 2023. “Inovação não se sustenta só com bons projetos isolados. Ela aparece quando empresas, universidades, capital, governo e talentos conseguem transformar conhecimento em negócio, tecnologia em eficiência e pesquisa em novas oportunidades de mercado”, afirma Drudi.



