

A TV Pública 3.0 deve transformar a televisão em uma plataforma de cidadania, mas sem fazer da conectividade um novo requisito para o acesso à informação e aos serviços públicos. Essa foi uma das principais mensagens do painel “O início da TV 3.0 nas emissoras públicas e a Plataforma mais br de serviços de governo digital”, realizado no Congresso da SET Expo 2026.
Para Bráulio Ribeiro, diretor de Engenharia, Tecnologia e Operações da EBC, a evolução precisa preservar o papel histórico da TV aberta na universalização do acesso. “A TV Pública 3.0 deve servir como ponte e não como barreira. Não pode seguir uma lógica de exclusão”, afirmou. Segundo dados apresentados por ele, 15% das pessoas com mais de 10 anos ainda estão fora da internet e apenas 65% dos domicílios das classes D e E possuem conexão. Por usar codificadores digitais, e não exigir conexão via internet, a TV 3.0 ajudará a democratizar a informação, a exemplo do historicamente a TV aberta faz, na visão dos especialistas.
A preocupação com inclusão também foi tema da fala de Daniela André, diretora da TV Câmara. Segundo ela, como a televisão está presente em 95% dos lares brasileiros, o novo padrão pode ampliar o contato da população com o poder público. “Nosso papel de TV pública é não deixar ninguém para trás”, afirmou.
A proposta é que a TV 3.0, por meio da plataforma Mais.br, incorpore interação e serviços públicos, transformando o aparelho em uma nova opção de interface de relacionamento com o Estado. Para além dos conteúdos de programação tradicionais e transmissões de eventos públicos, as possibilidades trazidas pela plataforma incluirão acesso a serviços como Meu SUS, Meu INSS, e-Cidadania e serviços eleitorais, bem como de alertas climáticos, campanhas de vacinação e outras notificações de interesse público.
Wilson Diniz Wellisch, secretário de Serviços de Radiodifusão do Ministério das Comunicações, observa que a plataforma comum e o aplicativo DTV+ foram concebidos justamente para ampliar o alcance da radiodifusão pública. A regulamentação prevê que o aplicativo esteja na tela inicial dos aparelhos compatíveis e que os canais públicos tenham posição de destaque no catálogo. “Como a plataforma também funciona em cima de uma comunicação online, nas regiões onde não houver serviços de radiodifusão das TVs públicas, o conteúdo poderá ser distribuído via streaming”, explicou. Na avaliação do secretário, a iniciativa pode aumentar a atratividade da TV aberta ao combinar conteúdo, conectividade e serviços.
Mas a construção desse ecossistema também exige integração entre as próprias emissoras públicas. Érico da Silveira, diretor da TV Senado, defendeu o compartilhamento de esforços e acervos entre instituições. “O cidadão e a vida não são compartimentados em esfera municipal, estadual ou federal”, afirmou. Para ele, a proposta é reunir diferentes olhares e conteúdos para oferecer ao público uma experiência mais integrada da democracia. Carlos Eduardo Neiva Melo, vice-presidente de Rede e Tecnologia da ASTRAL, destacou que essa articulação é parte de uma mudança mais ampla. “A TV 3.0 é fruto de um consenso entre a iniciativa pública e a privada. Isso é algo inédito”, disse, acrescentando que a plataforma mais br também é resultado desse trabalho conjunto.
Na visão de Tatiana Ladeira, que representou o secretário de Políticas Digitais da Presidência da República, João Brant, a Plataforma mais br terá gestão de um comitê executivo formado por diferentes organizações dos três Poderes, com a proposta de concentrar conteúdos e serviços públicos em um mesmo ambiente. Segundo ela, essa combinação resume o propósito da nova arquitetura. “A TV 3.0 oferece a tecnologia, a plataforma entrega cidadania”, resumiu.
Os participantes foram unânimes em afirmar que a tecnologia pode fazer da televisão uma porta de entrada para direitos e serviços, mas que seu potencial de inclusão dependerá de uma implantação que considere justamente quem ainda está à margem da conectividade. Assim, a TV Pública 3.0 poderá cumprir um papel que vai além da modernização da transmissão, tirando proveito da capilaridade da TV aberta para reduzir, e não ampliar, as desigualdades digitais do país.




