

O avanço da conectividade direta entre dispositivos e satélites, conhecido como Direct to Device (D2D), deve ampliar a cobertura de telecomunicações no Brasil e criar novas oportunidades em setores como transporte, defesa e internet das coisas. A avaliação foi feita por Kevin Cohen, vice-presidente de desenvolvimento de negócios D2D da Viasat, durante painel no Fórum Telebras Conecta, em Brasília.
Segundo o executivo, a principal mudança trazida pelo D2D é a possibilidade de comunicação direta entre celulares ou dispositivos IoT e satélites, sem a necessidade de antenas dedicadas, como ocorria tradicionalmente. Com a evolução dos padrões tecnológicos e a incorporação da funcionalidade em chipsets e smartphones, a tecnologia começa a ganhar escala comercial após anos de desenvolvimento no âmbito do 3GPP.
Cohen destacou que o modelo permite expandir a conectividade para áreas remotas ou sem cobertura terrestre. No Brasil, onde a cobertura celular alcança cerca de 19% do território, a solução via satélite surge como alternativa para levar comunicação a regiões rurais, rodovias e localidades isoladas. “Qualquer canto do Brasil agora pode ter conexão via satélite”, afirmou.
O executivo explicou que o D2D representa uma evolução dos tradicionais serviços móveis por satélite, historicamente restritos a dispositivos específicos e de alto custo. Com a padronização aberta, a tendência é que smartphones e dispositivos conectados passem a operar de forma híbrida, alternando entre redes terrestres e satelitais conforme a disponibilidade de sinal.
A adoção da tecnologia já começa a se refletir no mercado de dispositivos, com equipamentos compatíveis com as versões mais recentes dos padrões, como 5G e próximas, chegando gradualmente ao mercado. Cohen apontou ainda que montadoras de veículos planejam integrar conectividade direta via satélite em novos modelos a partir do fim da década, ampliando a segurança e a comunicação em áreas sem cobertura.
Para viabilizar o D2D em larga escala, o executivo ressaltou a necessidade de parcerias com operadoras móveis, que serão responsáveis pela oferta dos serviços ao consumidor final, em modelo semelhante ao roaming. Além disso, são necessários investimentos em infraestrutura, como estações terrestres, e a atuação de operadoras satelitais com espectro dedicado.
Nesse contexto, Cohen mencionou iniciativas como a criação da empresa Equitis, voltada à construção de uma infraestrutura baseada em satélites de órbita baixa (LEO), descritos como “torres no espaço”. A proposta é permitir que operadoras utilizem essa estrutura para oferecer serviços, ampliando o alcance das redes.
O executivo também destacou aplicações estratégicas para o Brasil, incluindo comunicação em situações de desastre, operações de defesa e conectividade para aviação e navegação marítima. Segundo ele, a integração com redes nacionais, como as operadas pela Telebras, pode reforçar a soberania digital e garantir maior resiliência das comunicações.
Cohen citou ainda a possibilidade de evolução da infraestrutura satelital brasileira, com soluções mais flexíveis e de menor custo em comparação a projetos anteriores, como o SGDC. A proposta inclui satélites com capacidade ajustável conforme a demanda regional, capazes de atender tanto áreas urbanas quanto regiões remotas e rotas marítimas.
Para o executivo, a combinação entre redes terrestres e satelitais tende a redefinir o conceito de cobertura, permitindo conectividade contínua em praticamente todo o território. “Todos nós temos momentos fora de cobertura. Com o Direct to Device, essa lacuna começa a desaparecer”, afirmou.





