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IBGE: Investimento em Inovação recua pelo terceiro ano seguido

Média em 2024 foi 64,4%, revela estudo feito em parceria com a ABDI.

A inovação na indústria brasileira segue em trajetória descendente. Pesquisa divulgada nesta quinta, 19/3, pelo IBGE, em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, revela que a taxa de inovação das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas foi de 64,4% em 2024. O índice marca a terceira queda consecutiva do indicador desde o início da série histórica, em 2021, e representa o menor patamar dos últimos quatro anos.

O percentual de 2024 é ligeiramente inferior ao registrado em 2023 (64,6%) e está 6,1 pontos percentuais abaixo do pico observado em 2021 (70,5%). Os dados são da Pesquisa de Inovação (PINTEC) Semestral 2024: Indicadores Básicos, um levantamento de caráter experimental que monitora a conduta inovativa das empresas, seus investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e os obstáculos enfrentados para inovar.

Apesar do recuo na taxa geral de inovação, o analista da PINTEC, Flávio Peixoto, explica que o cenário reflete a complexidade e a dinâmica de longo prazo do fenômeno. A taxa de inovação ficou estável na comparação com 2023, e as grandes empresas continuaram sendo relativamente mais inovadoras.

Fatores como o câmbio e a formação bruta de capital fixo influenciam no indicador, mas a inovação em si é um fenômeno dinâmico que às vezes precisa de um prazo de maturação longo. Temos um momento em que um grande percentual de empresas são inovadoras e, no ano seguinte, elas não deixam necessariamente de ser ativas em inovação, apenas não introduziram um produto ou processo naquele ano, mas continuam ativas em inovação, ponderou.

O levantamento aponta que o porte da empresa continua sendo um fator determinante para a capacidade de inovar. Enquanto as empresas com 100 a 249 pessoas ocupadas registraram taxa de inovação de 59,8%, o índice sobe para 65,7% na faixa de 250 a 499 pessoas ocupadas e atinge 75,4% entre as companhias com 500 ou mais funcionários.


Segundo Flavio Peixoto, analista da Fintec IBGE, a média da indústria como um todo esconde polos de excelência. “Quando a gente olha a série, vemos uma tendência de queda. Mas os setores são afetados de formas distintas por diversas variáveis, os preços da economia, PIB, investimento, câmbio, juros. No conjunto, na média, dá esse indicador de 64,4%. Mas o ideal é olhar por atividade, que permite uma percepção um pouco mais específica desse movimento em termos de atividades econômicas.”

Entre as atividades industriais, a Fabricação de produtos químicos (84,5%) liderou o ranking de inovação em 2024, seguida por Fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (82,1%) e Fabricação de móveis (77,1%). Na ponta oposta, o setor de Fabricação de produtos do fumo (29,8%) foi o menos inovador.

No detalhamento por tipo de inovação, as empresas foram mais inovadoras em processo de negócios (51,9%) do que em produto (45,2%). O percentual de empresas que introduziram um processo de negócio novo ou aprimorado é o maior desde o início da série e representa um crescimento ante 2023 (51%). Dentro dessa categoria, a principal novidade foram os métodos de organização do trabalho, de tomada de decisão ou de gestão de recursos humanos, adotados por 31,8% das companhias.

Historicamente, o produto é mais suscetível aos impactos negativos, por isso é mais difícil inovar em produto do que em processo de negócios, explicou Flávio. Um produto é mais complexo de se conceber que um processo, pois para um novo produto é preciso mudar características funcionais sobre seu uso, matérias primas, softwares. Além disso, o produto é mais afetado pela taxa de câmbio porque às vezes é mais barato importar produtos, o que desestimula a inovação.

Entre as empresas que inovaram em produto, 45,2% introduziram um bem novo ou substancialmente aprimorado em 2024, o menor percentual observado desde 2021 (50,5%). Os setores que mais se destacaram nesse quesito foram Fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (69,5%) e Fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (67,5%).

Apesar da queda na taxa de inovação, o total de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) realizado pelas empresas industriais inovadoras cresceu em 2024. Os dispêndios somaram R$ 39,9 bilhões, um aumento nominal de 4,4% em relação aos R$ 38,2 bilhões registrados em 2023.

A maior parte desse montante, 85,4%, foi desembolsada pelas empresas da Indústria de transformação (R$ 34,1 bilhões), enquanto as Indústrias extrativas responderam por 14,6% (R$ 5,8 bilhões). Apesar do crescimento nominal, o analista da PINTEC alerta que o investimento em P&D não é sinônimo imediato de inovação, sendo uma atividade estruturalmente concentrada em grandes empresas.

Os dados confirmam essa concentração: as companhias com 500 ou mais pessoas ocupadas foram responsáveis por 87,4% do total dos investimentos em P&D em 2024, um aumento em relação aos 84,6% de 2023. Em contrapartida, a participação das empresas de menor porte (100 a 249 pessoas ocupadas) caiu de 7,9% para 4,8% no mesmo período.

Do total investido, 86% foram financiados com recursos das próprias empresas. O setor público respondeu por 8% do financiamento, instituições privadas por 5%, e apenas 1% veio de fontes externas. As atividades que mais se destacaram na distribuição dos investimentos foram Indústrias extrativas (14,6%), Fabricação de veículos automotores (13,6%) e Fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (12,3%).

O acesso a mecanismos de apoio público à inovação cresceu em 2024. Do total de empresas inovadoras, 38,6% recorreram a algum instrumento de auxílio, proporção superior aos 36,3% de 2023. O Incentivo fiscal à pesquisa e desenvolvimento e inovação tecnológica, previsto na Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005), segue como o mecanismo mais utilizado, contemplando 28,9% das empresas.

Apesar de as empresas de grande porte ainda serem as principais usuárias desse incentivo (46,4%), houve um crescimento significativo no acesso por parte de companhias de médio porte (de 250 a 499 pessoas ocupadas), que passaram de 27,6% em 2023 para 35,6% em 2024. A pesquisa também registrou a maior proporção de empresas que, embora não tenham utilizado o benefício, manifestaram interesse em fazê-lo, atingindo 31,5%.

Em relação às parcerias para inovação, a pesquisa revela que o tamanho da empresa é determinante. Mais da metade (50,3%) das empresas inovadoras com 500 ou mais pessoas ocupadas estabeleceram algum tipo de cooperação, um percentual muito superior ao observado entre as empresas de 100 a 249 pessoas ocupadas (24,5%). Os fornecedores foram os principais parceiros, citados por 27,1% das empresas que cooperaram. O setor de Metalurgia registrou o maior percentual de empresas com parcerias de inovação, atingindo 47,8%.

Quase metade (47,8%) das empresas inovadoras relataram ter enfrentado obstáculos para inovar em 2024. A instabilidade econômica foi o principal entrave citado (44,5%), seguido pela capacidade limitada de recursos internos (43,0%), acirramento da concorrência (42,1%) e dificuldade em estabelecer parcerias (35,7%).

Apesar dos desafios, as perspectivas para os próximos anos são majoritariamente otimistas. Para 2025, 96,4% das empresas declararam intenção de aumentar ou manter o dispêndio em P&D em relação a 2024. A expectativa de manutenção dos investimentos é maior entre as empresas de menor porte, chegando a 71,7% na faixa de 100 a 249 pessoas ocupadas. Para 2026, considerando como base as expectativas para 2025, a proporção de empresas que pretendem elevar ou manter os gastos sobe para 98,5%.

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