
A infraestrutura financeira brasileira atravessa uma mudança estrutural profunda, impulsionada pela convergência entre plataformas legadas, open finance, o Pix e o avanço de banking as a service (BaaS). Durante o painel “Finanças embarcadas em escala: de diferencial competitivo a infraestrutura invisível”, executivos de grandes instituições bancárias, empresas de tecnologia e plataformas de mobilidade debateram como a arquitetura de software e a conformidade regulatória estão reescrevendo as regras do setor.
Ao abrir o painel, Adriana De Salles Gomes, da MIT Sloan Management Review, pontuou a velocidade dessa transformação no mercado: “Há poucos anos, quando tinha o serviço financeiro dentro de um aplicativo, isso era uma inovação, mas hoje em dia está super comum — e é uma transição que open finance ajudou muito quando lançou os ITPs.” Para as instituições tradicionais, a ascensão das finanças embarcadas representa um duplo movimento de competição acirrada e novas oportunidades de distribuição via ecossistemas parceiros.
“É inegável que o BaaS, junto com o Open Finance, o Pix e outras inovações, permitiram inovações sem precedentes e dinamismo na oferta de serviços financeiros que hoje podem ser entregues em diversas jornadas e contextos, e como consequência, geram melhor oferta para o cliente”, disse Pedro Fortes, diretor de Estratégia Corporativa e BaaS do Itaú Unibanco.
A modernização de estruturas de grande porte e a revisão de marcos legais legados também exigem dos operadores públicos e institucionais uma nova leitura sobre a relação com o cidadão e a democratização de recursos. “A gente ganha se o cliente ganhar. Com a velocidade e como o mercado se apresenta hoje, especialmente com o novo conceito de mudar a relação com o cliente — que antes era restrita à oferta de produtos —, você vira a forma de enxergar o cliente e passa a ofertar o que ele quer receber”, acrescentou Rodrigo Hori, vice-presidente de Fundos de Governo da Caixa.
A camada seguinte dessa transformação é a abstração da complexidade bancária por meio de APIs, permitindo que qualquer companhia incorpore serviços financeiros em suas jornadas de forma nativa. “A gente está bastante entusiasmado com a infraestrutura invisível. Temos centenas de casos que ajudamos a construir, como o maior ERP do Brasil, criando conta para cada empresa e se transformando no internet banking — tudo isso tem infraestrutura invisível, estão consumindo serviços financeiros sem estar vendo o banco, e esse é o conceito de bank as a service”, pontuou Marcelo França, fundador e CEO da Celcoin.
Essa descentralização ganha escala ao reconfigurar o ciclo de vida de produtos digitais em diversos setores da economia, transformando plataformas transacionais em superaplicativos de alta capilaridade. “A 99Pay surgiu para resolver a dor de pagamento na nossa jornada principal de mobilidade e hoje somos regulados como CFI como financeira. E quando resolvemos a dor do cliente, enxergamos dores que não enxergávamos antes”, Bruno Lodo, head de Experiência do Usuário na 99Pay.
À medida que o volume de transações e o ecossistema de contas gerenciadas por terceiros se expandem, a segurança da informação e o rigor no compliance deixam de ser exigências acessórias para se tornarem o principal diferencial competitivo do mercado de BaaS. Para Pedro Fortes, confiança é o nome do jogo “e o que nos preserva como players. Lidar com o patrimônio das pessoas é baseado em uma relação de confiança, e isso não mudou e será sempre assim”.
O dimensionamento da operação exige blindagem sistêmica e curadoria restrita de parceiros para mitigar riscos regulatórios perante o Banco Central. “A gente encara a agenda de governança e segurança como diferencial competitivo. O BaaS acaba sendo uma tecnologia que no início parece fácil de prover, mas conforme vai tendo mais clientes, ganha uma complexidade muito grande”, opinou Marcelo França.
O desafio de engenharia e produto reside em manter a retaguarda altamente protegida sem penalizar a fluidez da interface para o consumidor final. “Precisamos desmistificar que uma experiência suavizada e boa tem alto risco por trás. O desafio é maximizar a equação com os dois lados”, disse Bruno Lodo.
O uso massivo de telemetria e dados comportamentais estruturados viabiliza a personalização preditiva de serviços, exigindo, em contrapartida, blindagem rigorosa de privacidade e conformidade com os marcos legais de tratamento de informações. “Dados são muito importantes. No conceito de superapp nosso, conseguimos extrair dados de consumo, e esta extração exige muita segurança nossa e como usamos de maneira responsável”, acrescentou Lodo.




