

O avanço da infraestrutura do Open Finance no Brasil já permite uma escala significativa de integração entre instituições financeiras, mas o próximo passo para o ecossistema é transformar essa capacidade tecnológica em valor percebido pelos clientes. O diagnóstico foi apresentado durante o painel “APIs, Plataformas Digitais bancárias e Open Finance: Criando um ambiente de cooperação”, realizado nesta quinta-feira (10), em Brasília, durante o 4º Tech Bank Forum.
Representantes de PicPay, Sicoob, Banco do Brasil e BBTS discutiram os avanços do sistema, os obstáculos regulatórios e tecnológicos e a necessidade de uma atuação mais colaborativa entre os participantes. Na abertura do painel, Patrícia Albani, gerente de produtos Open Finance da Unicred e moderadora do painel, destacou a dimensão alcançada pelo ecossistema.
Segundo ela, atualmente são cerca de 800 instituições participantes, aproximadamente 7 bilhões de chamadas de API por semana e 240 milhões de consentimentos. Este universo envolve cerca de 130 milhões de pessoas físicas e quase 2 milhões de pessoas jurídicas que já realizaram consentimentos. Em 2025, os pagamentos realizados por meio do Open Finance cresceram oito vezes em relação ao ano anterior.
Apesar da escala, ainda existe uma lacuna importante de conhecimento entre os usuários. Uma pesquisa da Atlas Intel citada por Albani aponta que 81% dos brasileiros já ouviram falar em Open Finance, mas somente 21% sabem efetivamente o que significa. Para a executiva, o estágio atual é resultado de um trabalho construído de forma coletiva pelo mercado. “A ideia aqui é falar da infraestrutura construída. É um trabalho colaborativo”, afirmou.
Entre as instituições que apostaram desde cedo no modelo está o PicPay. Sâmmara Ferrão, tech manager da empresa, ressaltou que a condição de instituição nativa digital favoreceu uma visão mais aberta sobre o compartilhamento de dados e a integração com outras instituições. O PicPay possui atualmente 70 milhões de clientes e R$ 4,1 bilhões em dinheiro em conta.
A empresa aderiu voluntariamente ao Open Finance desde o início por acreditar no potencial do sistema. Segundo Sâmmara, uma das principais oportunidades está justamente no acesso a informações financeiras de outras instituições, permitindo construir experiências mais integradas para os usuários. “Muitos players tinham receio, mas, para nós, é benéfico pensar que podemos acessar informações em outras instituições”, afirmou.
Essa estratégia também se reflete nos produtos. O PicPay desenvolveu um agregador que permite ao cliente visualizar contas mantidas em diferentes instituições dentro do aplicativo. Na iniciação de pagamentos, a companhia também passou a utilizar uma das APIs mais recentes disponibilizadas pelo ecossistema. A experiência, vinculada à jornada de depósito, já movimentou mais de R$ 2 milhões. “Para nós, é importante participar do ecossistema e mostrar ao usuário como ele pode utilizar essas transações”, disse.
No Sicoob, a dimensão cooperativista acrescenta uma camada de complexidade à implementação. Jhonathan Hiroshi, gerente de arquitetura tecnológica da instituição, explicou que o sistema reúne mais de 350 cooperativas, cada uma considerada uma instituição financeira independente perante o Banco Central. Isso fez com que a organização precisasse lidar com desafios específicos de identidade, marca e experiência do usuário.
Uma das soluções adotadas foi permitir jornadas de consentimento entre cooperativas participantes dentro do próprio aplicativo. Hiroshi reconheceu, porém, que a experiência ainda apresenta dificuldades. “Temos uma jornada que é confusa, mas está dentro de nosso app. São desafios que o cooperativismo tem que enfrentar até hoje”, afirmou, lembrando que a estratégia do Sicoob é aproximar o Open Finance do cotidiano dos cooperados, oferecendo funcionalidades de forma mais visível em seus canais digitais.
Entre as possibilidades está a transferência de recursos mantidos em outras instituições para o relacionamento com a cooperativa em poucos passos. “Nossa estratégia é trazer o Open Finance como destaque em nosso site e nosso app, permitindo trazer o dinheiro de outras instituições em dois cliques”, explicou Hiroshi. Para ele, a segurança também representa um desafio relevante. O Open Finance exige certificações específicas, aumentando a necessidade de especialização das equipes e de investimentos em tecnologia e processos.
O papel das plataformas
Na avaliação de Augusto Azevedo, gerente executivo Kodiak, da BBTS, o desafio para as instituições não está apenas na disponibilidade de tecnologia, mas na capacidade de transformar recursos tecnológicos em produtos e experiências com velocidade. Segundo ele, ainda existe um gargalo de engenharia na concepção e execução de soluções.
A proposta defendida pela BBTS é ampliar o reuso de componentes e capacidades tecnológicas, permitindo que as equipes concentrem esforços na geração de valor. “A ideia principal ao pensar a plataforma é garantir o reuso, com foco em entrega de valor, experiência e com ciclos de experimentação de produtos mais rápidos”, afirmou.
Para Azevedo, plataformas também têm papel importante na governança e na habilitação de novas capacidades. A adoção crescente desse modelo, segundo ele, já provocou uma mudança relevante na velocidade de desenvolvimento. “O que observamos ao longo dos últimos anos é uma escalada massiva da adoção de plataformas. Isso impactou nossa velocidade de interação para lançar novos produtos, o que ocorre de forma mais rápida e com ciclos menores”, disse.
Outro ponto levantado pelo executivo foi a necessidade de lidar com a escassez de recursos. Em vez de desenvolver internamente todas as capacidades, as instituições precisam identificar quais componentes podem ser tratados como commodities ou delegados a terceiros. O objetivo é reduzir esforços operacionais e direcionar recursos para aquilo que efetivamente diferencia a experiência oferecida ao cliente.
Para Daniel Rocha Elias, gerente de soluções de TI do Banco do Brasil, a estrutura tecnológica e regulatória do Open Finance avançou de maneira expressiva. O principal desafio, agora, é fazer com que o cliente compreenda por que o sistema é relevante e quais benefícios pode obter a partir dele.
“A questão estruturante já avançou bastante. Nosso ponto de principal atenção é a questão de oferecer melhor aos clientes. Eles têm que compreender melhor o valor do Open Finance”, afirmou. Na avaliação do executivo, a análise dos dados será fundamental para demonstrar resultados e convencer os usuários a aderirem às novas possibilidades.
Essa preocupação com a percepção de valor também apareceu na discussão sobre cultura. Rocha Elias considera que o mercado já alcançou um nível de maturidade regulatória e institucional suficiente para avançar, mas ainda precisa consolidar uma cultura de confiança. “No momento em que estamos, é questão de aculturamento. A parte regulatória está ok e as instituições estão maduras. É uma questão de cultura e o principal desafio é reforçar a confiança e a credibilidade”, afirmou.
Nesse cenário, os resultados concretos e a experiência do consumidor devem funcionar como os principais indutores da adoção. Para Sâmmara, do PicPay, um dos obstáculos está no próprio nome do sistema. “A população tem pouco conhecimento e o nome em inglês não ajuda”, avaliou.
A executiva também apontou dificuldades relacionadas às integrações, aos cronogramas e à adequação dos produtos às exigências regulatórias. Dentro das próprias instituições, segundo ela, ainda é necessário demonstrar de maneira mais clara o retorno dos investimentos e os benefícios gerados pelo Open Finance.
A qualidade dos dados é outro fator considerado essencial para a evolução do modelo. “Pensando nos indicadores de qualidade, precisamos trabalhar em cima da qualidade de dados. É um ponto importante e necessário de ser discutido”, afirmou Sâmmara.
Entre os temas mais críticos do debate esteve a regulamentação dos indicadores de disponibilidade e desempenho. Hiroshi, do Sicoob, classificou como uma das principais dores atuais a instrução normativa relacionada ao monitoramento das instituições. Segundo ele, os critérios são extremamente rígidos e não encontram paralelo em outros sistemas do Sistema Financeiro Nacional.
“O monitoramento é feito por endpoint, minuto a minuto, com zero de tolerância”, explicou. Na avaliação do executivo, a exigência cria dificuldades operacionais significativas, uma vez que as instituições precisam manter simultaneamente indicadores elevados de disponibilidade e desempenho. Segundo Hiroshi, até o momento nenhuma instituição financeira conseguiu atingir os dois indicadores no mesmo mês.
O Sicoob já levou a questão ao Banco Central, apresentando exemplos de outras iniciativas e modelos de monitoramento. O tema, contudo, ainda está em discussão.
Sâmmara afirmou que o PicPay também enfrenta dificuldades semelhantes. Para ela, é importante que o regulador considere as particularidades da infraestrutura ao avaliar os indicadores de conformidade. “Hoje, estar em conformidade com esses indicadores é um dos pontos que mais nos dá trabalho”, afirmou. A executiva comparou o nível de exigência ao funcionamento do Pix, observando que interrupções pontuais podem ocorrer no sistema de pagamentos, enquanto o Open Finance opera sob critérios de disponibilidade ainda mais rigorosos.
O debate mostrou, assim, que o Open Finance brasileiro entrou em uma nova etapa. A infraestrutura, as APIs e a adesão institucional já atingiram escala relevante. O desafio passa agora por transformar essa base em experiências simples, produtos personalizados e benefícios concretos para o consumidor, sem perder de vista a segurança, a qualidade dos dados e a sustentabilidade operacional das instituições.


