
Imagine um vendedor que chega ao escritório e descobre que ganhou um presente invisível: 45 minutos a mais por dia. A IA resumiu relatórios, montou a planilha, rascunhou o planejamento. O relógio agradece. O caixa da empresa, nem tanto. Porque tempo livre, sozinho, não paga a conta.
É nesse intervalo, entre a produtividade que se sente e o lucro que se prova, que mora o grande dilema corporativo da era da IA. E foi em torno dele, em especial, que girou a coletiva de imprensa realizada no primeiro dia da Conferência Gartner CIO & IT Executive, em São Paulo, que se encerra hoje.
A conversa foi menos sobre algoritmos e mais sobre pessoas. A IA pode até agir sozinha, por meio de agentes, mas não dispensa um cérebro humano no comando, armado de conhecimento e experiência. E a transformação que ela provoca vai além dos sistemas: atinge o coração da cultura das empresas, trazendo insegurança, conflitos no presente e medo do futuro.
Capacitar, recalibrar, reinventar
Gabriela Vogel, Vice-Presidente Analista do Gartner, desenhou o caminho em três movimentos. O primeiro é capacitar as equipes e despertar nelas a curiosidade. “Mas tudo requer investimento, não somente hoje, mas continuamente, e tainda riscos e incertezas sobre sucesso”, alertou.
O segundo é recalibrar (mudar) a organização: perguntar, sem medo da resposta, se o modelo operacional atual se sustenta, se processos e sistemas precisam ser redesenhados e se essas mudanças trarão retorno. “Vale destacar que nessa jornada não existe geração de valor para o negócio sem correr riscos.”
O terceiro é se reinventar, com parcerias, fusões e joint ventures. “Nesse mundo, todos têm de se redesenhar, empresas e nós”, sentenciou. E completou: “Não se trata de um ato de tecnologia, é um ato de negócio para que o dinheiro entre realmente no bolso da empresa”.
O pesadelo do ROI
Voltemos ao vendedor e seus 45 minutos. Para Gabriela, é aqui que o ROI da IA vira pesadelo ou oportunidade. “Somente a produtividade não gerou dinheiro no bolso da empresa. Aí é que entra a criatividade de acordo com cada tipo de negócio”, explicou.
O tempo recuperado pode virar capacitação para fechar mais contratos, preparo para ocupar vagas em aberto ou, no RH, esforço extra para atrair talentos. Sem essa discussão, alerta a analista, o ganho simplesmente evapora, esquecido entre uma reunião e outra.
“A rentabilidade será moldada de acordo com os objetivos de negócio de cada empresa e com a sua criatividade para rentabilizar ganhos intangíveis como produtividade”, afirmou. A chave, resume, está na criatividade e na visão de futuro. “É preciso garantir o investimento contínuo, e enfrentar riscos.”
Impactos no futuro do trabalho
Tori Paulman, também Vice-Presidente Analista do Gartner, projetou o olhar para o futuro nesse encontro, e de lá para trás. “Quando executivos de negócios e de TI olharem para o início da era da IA, perceberão que seu maior erro foi acreditar que a automação do trabalho era o objetivo, quando a ampliação das capacidades da força de trabalho era a oportunidade”, afirmou.
Na análise do Gartner, à medida que a IA continua acelerando o ritmo e ampliando o escopo do trabalho, os CIOs precisam se preparar para mudanças que influenciarão o futuro do trabalho.
A vantagem competitiva, alertou Tori, ficará com os CIOs e executivos de negócios que construírem uma organização moldada pela IA, na qual o valor da IA se acumula ao remodelar funções e permitir que os fluxos de trabalho ultrapassem fronteiras tradicionais, aumentando a velocidade e reduzindo atritos.
Segundo as executivas, reduzir o quadro de funcionários pode até melhorar os resultados financeiros no curto prazo, mas enfraquece os pipelines de talentos e dilui o conhecimento acumulado pela organização. Além disso, como a força de trabalho global está estagnada ou encolhendo, a disputa pelos profissionais certos tende a se acirrar, o que acaba encarecendo recrutamento, treinamento e integração lá na frente.
Porém, a tentação de converter eficiência em demissões é grande, e pode ser um tiro no pé. E o Gartner reitera o alerta em números. A previsão do Gartner é que, até 2029, 30% dos funcionários demitidos por causa da substituição por IA precisarão ser recontratados, muitas vezes a um custo bem maior.
A saída proposta por Tori é um talent remix: usar a IA para remodelar funções e levar pessoas de atividades menos produtivas para novas oportunidades. Do contrário, projetos que frustram expectativas podem fazer a empresa perder o interesse pela tecnologia e cair no que o Gartner chama de “Vale da Desilusão”.
Mudanças para gerar valor, segundo o Gartner
1. Ampliar, não substituir. Como parceira de trabalho, a IA deve potencializar julgamento, criatividade e liderança, com a responsabilidade pelas decisões em mãos humanas. Avatares de IA, coaching digital, gêmeos digitais e IA emocional apoiam essa relação.
2. Formar quem se adapta, e não só quem adota. O ritmo tecnológico expõe lacunas de habilidades. As empresas preparadas investirão em letramento e gestão de competências com IA, destreza digital, análise de estilos de trabalho e líderes fluentes em IA.
3. Preservar contexto e significado. Com a IA em mais processos, cresce o risco de perder julgamento humano e conhecimento institucional. Os sistemas precisam melhorar decisões, manter supervisão humana e explicar o porquê dos processos, com apoio de interfaces conversacionais, inteligência de decisão e interfaces generativas.
4. Construir valor que se acumula. Cada novo caso de uso deve ser mais rápido, barato e seguro que o anterior. Até 2027, prevê o Gartner, 75% das empresas que converterem ganhos de IA em corte de custos serão superadas por quem reinvestir em inovação, modernização e capacitação. Vestíveis com IA, GenAI de domínio, IA incorporada e vibe coding ajudam a erguer essa base.



