

A recente aprovação do Redata pode dar ao Brasil uma oportunidade inédita de ampliar sua participação no mercado global de data centers, mas o aproveitamento desse potencial dependerá de avanços em tributação, conectividade, energia e segurança jurídica. Essa foi uma das principais conclusões do primeiro painel do Data Center World Brasil, que reuniu representantes de empresas e entidades do setor para discutir a infraestrutura digital como ativo geopolítico e os fatores que podem determinar a competitividade brasileira nos próximos anos. Para os participantes, o país já reúne vantagens importantes, como uma matriz elétrica com mais de 90% de fontes renováveis, mas precisa transformar esses diferenciais em condições efetivas para atrair investimentos.
Presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) e fundador da Boost, Renan Lima Alves destacou três fatores como fundamentais para a atração de investimentos, especialmente em estruturas voltadas a treinamento e inferência de inteligência artificial: custo, conectividade e energia. Na avaliação do executivo, o Brasil já possui uma vantagem relevante em relação a outros mercados. “Nós não temos o gargalo de energia que os Estados Unidos possuem”, exemplificou.
Alves também ressaltou que o crescimento do setor não depende exclusivamente do Redata. “O Brasil cresce independentemente de Redata, mas de fato o Redata cria um ambiente mais favorável, especialmente para as empresas que queiram investir em parques próprios.” Segundo ele, o mercado brasileiro de cloud cresce entre 10% e 15% ao ano e ainda há espaço para expansão de edge computing, além do avanço dos data centers voltados à inferência e ao treinamento de IA.
Para Victor Arnaud, presidente da Equinix, a oportunidade brasileira está diretamente relacionada à capacidade de tornar o ambiente de negócios mais competitivo. O executivo afirmou que a companhia vem investindo globalmente, em média, US$ 5 bilhões por ano e que, nos próximos cinco anos, pretende investir o mesmo montante aplicado ao longo dos 28 anos anteriores, com o objetivo de dobrar sua base instalada. Arnaud ponderou, porém, que parte do crescimento projetado para o mercado aconteceria mesmo sem o Redata.
“As pessoas falam que o mercado vai crescer 5x com o Redata. Isso aconteceria mesmo sem o Redata”, disse. Na avaliação dele, o avanço de inferência, treinamento e neocloud tende a trazer uma nova onda de demanda para o Brasil. Hoje, segundo o executivo, cerca de 60% dos workloads de nuvem pública estão hospedados fora do país por uma questão de custo. A redução da carga tributária poderia estimular a repatriação de processamento, ampliando também o controle sobre os dados.
ICMS
O impacto do ICMS apareceu como um dos principais pontos de atenção do debate. Valter Wolf, diretor de Projetos e Parcerias em Tecnologia da Brasscom, afirmou que a aprovação do Redata representa um avanço, mas que ainda há etapas importantes de regulamentação, com o marco da IA, e uma discussão com os Estados.
“O Redata passou, mas ainda temos a briga da regulamentação e decreto do Redata. Outro ponto é o ICMS. O ICMS representa hoje um terço da carga tributária. É uma discussão de país. Precisamos que todos os Estados se alinhem.” Segundo ele, a Brasscom participa das discussões no Confaz e trabalha com uma proposta de redução de 90% do ICMS sobre os mesmos 25 equipamentos listados e contemplados pelo Redata. Wolf também classificou o Redata como “a primeira lei de tecnologia sustentável”, por prever o uso de energias renováveis, e defendeu que a disputa por investimentos seja tratada como uma competição do Brasil com outros países, e não entre estados.
A conectividade e a integração do Brasil às cadeias globais também foram apontadas como condições essenciais. Para Luiz Henrique Barbosa da Silva, presidente executivo da TelComp, o país ainda tende a olhar excessivamente para o mercado doméstico e encontra dificuldades quando precisa competir globalmente. “Quando falamos em Redata, não estamos falando em eliminar impostos, mas em equalizar para competir com o mundo”, afirmou. O executivo defendeu ainda maior agilidade em questões burocráticas. “Não se pode demorar dois anos para ter uma autorização para implantar um data center.”
Já Bruno Cavalcanti, diretor jurídico, tributário e de governança da Conexis, colocou a conectividade no centro da discussão. “Não existe data center sem conectividade. Sem fibra, sem backbone, sem redes móveis de alta capacidade, não temos investimentos em processamento.” Para ele, também é necessário combinar regulação responsiva com segurança jurídica, evitando regras antecipadas que possam travar a evolução da infraestrutura.
O desafio, portanto, não termina com a aprovação do Redata. Renan defendeu uma mudança de postura na política de atração de investimentos. “A política protecionista só precisa existir quando não se tem diferenciais competitivos. O Brasil tem muitos diferenciais. Precisamos de política de ataque e não protecionismo.” Na avaliação de Arnaud, além do equacionamento do ICMS, será necessário adaptar o Redata à reforma tributária a partir de 2027 e avançar em regras compatíveis com frameworks internacionais para proteção e soberania de dados, dando aos investidores estrangeiros a tranquilidade para trazer processamento para o Brasil. “O país vai ser grande de qualquer forma. Com Redata, ganhamos uma propulsão que nunca tivemos”, afirmou.
Para os participantes, o momento combina crescimento da demanda por infraestrutura para inteligência artificial, disponibilidade de energia renovável e necessidade de repatriar serviços de processamento. A capacidade de transformar essas vantagens em investimentos dependerá agora das decisões regulatórias e tributárias tomadas nos próximos anos. Se bem posicionado, o Brasil tende a conquistar uma posição de destaque nesta que o mercado vem chamando de próxima revolução industrial.



