GovernoInovação

Computação quântica já chegou e tem de estar no planejamento das empresas nacionais

A computação quântica começa a deixar o campo das pesquisas teóricas para entrar em uma etapa de demonstração prática e desenvolvimento de produtos. O cenário, os potenciais e os riscos dessa tecnologia foram discutidos no painel “Comunicação Quântica e Computação Quântica”, realizado nesta quarta-feira (7/10), durante o Futurecom 2026. Mediados pelo cientista líder em Quantum e redes 6G da CGC (CTIF Global Capsule), Paulo Sergio Rufino Henrique, especialistas destacaram que o mercado ainda está no início da chamada segunda geração das tecnologias quânticas, mas já existem aplicações concretas em computação, comunicação e sensores.

Para João Marcelo Silva Souza, pesquisador em Quantum do SENAI CIMATEC, o momento é de transição entre conceitos desenvolvidos teoricamente e soluções que começam a chegar ao mercado. “Estamos somente no começo da segunda geração das tecnologias quânticas. Começamos agora a provar diversos itens que tínhamos de forma teórica. Agora começam a se tornar produtos”, afirmou.

Segundo o pesquisador, as tecnologias quânticas podem ser divididas em três grandes frentes: computação, comunicação e sensores. Embora os computadores quânticos atuais ainda tenham capacidade limitada, já é possível utilizá-los na exploração de problemas específicos. A tendência, ressaltou, não é de substituição imediata dos computadores tradicionais, mas de uma atuação conjunta entre diferentes arquiteturas.

Hagai Eisenberg, cofundador e Chief Science Officer da EQA Security, destacou justamente a necessidade de identificar os problemas em que a computação quântica poderá oferecer vantagem efetiva sobre os sistemas tradicionais. “A questão não é o que podemos fazer, mas onde podemos obter vantagem com a computação quântica sobre a computação tradicional. Ela resolve problemas específicos, impossíveis de resolver com computação tradicional”, explicou.

Entre as aplicações apontadas está a capacidade de simular reações químicas complexas, com potencial impacto em áreas como desenvolvimento de medicamentos e novas baterias. A tecnologia também pode contribuir para a evolução da inteligência artificial, por meio de algoritmos capazes de acelerar o aprendizado de agentes e otimizar processos.


A comunicação quântica e os sensores também já representam áreas de aplicação. De acordo com os especialistas, sensores quânticos podem permitir a coleta de informações que atualmente não são acessíveis pelos métodos convencionais, enquanto a comunicação quântica abre novas possibilidades para a transmissão segura de informações.

Segurança no centro da discussão

Ao lado das oportunidades, o avanço quântico traz um desafio imediato para a segurança digital. Eisenberg alertou que computadores quânticos suficientemente poderosos poderão quebrar mecanismos de criptografia utilizados atualmente. “Como faz coisas que eram impossíveis antes, o principal risco é a possibilidade de quebrar a encriptação das redes atuais. A computação quântica pode quebrar esses códigos”, afirmou.

Souza reforçou que a questão precisa entrar desde já no planejamento das empresas. Segundo ele, uma parcela muito significativa das organizações ainda utiliza algoritmos como o RSA em seus processos de segurança, o que cria uma janela de vulnerabilidade diante da evolução da computação quântica. “Hoje, 99,9% das empresas têm RSA em seus processos e senhas e isso é um risco”, afirmou. O pesquisador também chamou atenção para recomendações e discussões regulatórias que apontam para a necessidade de substituição progressiva de algoritmos considerados vulneráveis à computação quântica.

O desafio, portanto, não está apenas na aquisição de equipamentos ou no desenvolvimento de novos algoritmos. As empresas terão de avaliar processos, infraestrutura, dados e, principalmente, a capacitação de profissionais para lidar com uma tecnologia que exige competências diferentes das utilizadas atualmente.

Preparação

Para Souza, o impacto da computação quântica tende a ser mais abrupto do que o provocado por algumas das transformações tecnológicas recentes. A razão está no potencial da tecnologia para atacar problemas que permanecem sem solução ou que demandam recursos computacionais inviáveis nos modelos tradicionais.

“Quando passamos para a computação quântica, vemos que as empresas não estão preparadas para absorver e usar computação quântica com proveito. Ela poderá revolucionar processos ainda não resolvidos, mas isso vai exigir especialidades diferentes de profissionais e isso não é trivial”, disse.

Nesse contexto, a preparação precisa começar antes de a tecnologia atingir sua plena maturidade comercial. A recomendação envolve mapear processos internos que podem se beneficiar de recursos quânticos, identificar riscos relacionados à criptografia e formar equipes capazes de compreender e aplicar os novos paradigmas computacionais.

O Brasil, segundo Souza, já dispõe de capacidade tecnológica e de formação profissional para participar dessa transformação. O país conta com equipamentos e iniciativas nas áreas de computação e comunicação quântica, além de profissionais especializados, mas esse potencial ainda é pouco conhecido pelo mercado. “O Brasil já tem tecnologias quânticas e forma bons profissionais. O Brasil está na corrida, também como provedor de soluções de tecnologia, só que isso não é conhecido. Temos tecnologia e podemos ajudar as empresas a se preparar”, afirmou.

A avaliação dos participantes do painel é que o momento atual deve ser encarado menos como uma corrida para adotar imediatamente computadores quânticos e mais como uma fase de preparação. A combinação entre computação tradicional, inteligência artificial e tecnologias quânticas deverá criar novos modelos de processamento, enquanto a comunicação e os sensores quânticos ampliam o campo de aplicações. Para as empresas, o desafio é compreender desde já onde estão as oportunidades — e quais estruturas de segurança precisarão ser revistas antes que a tecnologia alcance escala.

Botão Voltar ao topo