Mercado

CIOs e o dilema de quem dita o ritmo das decisões

O impacto da inteligência artificial e os dilemas estratégicos e operacionais de suas implementações nortearam o debate do painel “O mindset da próxima onda da tecnologia bancária. Quem decide?”, mediado por Christian Flemming, COO e CTO do BTG Pactual, durante o Febraban Tech 2026. O encontro reuniu lideranças de tecnologia dos maiores bancos do país para discutir não apenas

Para abrir os debates, Flemming pontuou que o questionamento atual já não reside em saber se essas ferramentas transformarão os serviços, mas sim em compreender quem dita o ritmo das decisões e quais são os motivadores por trás delas.

A resposta para esse desafio passa diretamente pelo gerenciamento de plataformas complexas e pelos sistemas legados. Ricardo Guerra, líder de tecnologia, dados, experiência do cliente e operações do Itaú Unibanco, destacou que a aceleração das expectativas dos clientes — impulsionada pela facilidade de respostas imediatas proporcionada pela inteligência artificial — exige dos bancos um equilíbrio delicado entre modernização tecnológica, segurança e confiança.

Segundo Guerra, o Itaú passou os últimos dois anos estruturando plataformas de segurança para mitigar riscos como alucinações de modelos e garantir a assertividade no uso de IA generativa, reduzindo ciclos de testes de semanas para horas e viabilizando um patamar inédito de criação de soluções.

A segurança e a confiança, tratadas como ativos inegociáveis, foram apontadas como estratégia apresentada por Cíntia Scovine Barcelos, CTO e diretora-executiva de tecnologia do Bradesco. A executiva detalhou os pilares da jornada do banco rumo a uma organização guiada por inteligência artificial, que inclui um framework robusto de IA responsável, governança de dados reutilizáveis por domínio de negócio e a evolução da assistente virtual BIA, que completa dez anos em 2026


Com frentes voltadas para a produtividade interna na codificação de softwares e parcerias em ecossistemas de pesquisa para o desenvolvimento de modelos fundacionais, o Bradesco busca construir uma arquitetura modular orientada a rápida adaptabilidade e resiliência, incorporando algoritmos de criptografia preparados para a computação quântica.

Sob a perspectiva de uma instituição centenária, Marisa Reghini, vice-presidente de negócios e tecnologia do Banco do Brasil, classificou a instituição como uma “startup de 217 anos”, ressaltando que a chave para a longevidade tem sido a capacidade contínua de reinvenção diante das demandas dos clientes.

O banco vem direcionando esforços na transição de negócios digitais para autônomos, investindo fortemente na capacitação de colaboradores por meio de sua academia de IA e no lançamento do “app 5.0”, estruturado para permitir que o usuário interaja de forma conversacional. Reghini enfatizou que o grande desafio atual consiste em construir uma infraestrutura segura para transações mediadas não apenas entre humanos, mas entre clientes e agentes autônomos.

A governança como motor de aceleração, e não como obstáculo, foi o foco da análise de Richard Silva, CIO do Santander Brasil e CEO da F1rst. Para o executivo, o controle rigoroso é indispensável justamente porque a inteligência artificial tende a errar com convicção.

Silva apontou que o foco da inovação no banco já ultrapassou a busca exclusiva por eficiência de custos — com a meta audaciosa do grupo de gerar mais de R$ 6 bilhões em economia até 2028 —, passando a mirar a melhoria na qualidade da experiência e na conversação com o consumidor.

Durante sua fala, também destacou aprendizados recentes de missões internacionais, ressaltando o valor central da engenharia e da autonomia das equipes técnicas por meio da F1rst.

O panorama dos desafios operacionais foi complementado por Darlan Costa da Silva Lins, diretor-executivo de soluções de TI da Caixa, que apontou o dilema entre oferecer inovação ágil e garantir a segurança nas transações executadas por agentes de IA, respeitando perfis diversificados de clientes e princípios de adequação financeira.

Com ganhos expressivos de produtividade na engenharia de software e iniciativas voltadas à unificação de múltiplos aplicativos em um superapp, a Caixa aposta na capacitação contínua e na resiliência de suas plataformas.

Ao debaterem quem de fato dita os rumos da próxima onda tecnológica, os líderes convergiram para o protagonismo do consumidor final e para a descentralização das decisões. Cíntia Barcelos resumiu que o objetivo não é administrar um banco para dezenas de milhões de clientes, mas sim operar milhões de bancos personalizados, visando à experiência individual.

Marisa Reghini e Darlan Lins reforçaram que a assertividade reside em decisões colegiadas que integrem as visões de negócios e de tecnologia, sempre atentas às necessidades expressas pelo público. Ricardo Guerra salientou que os investimentos devem ser direcionados cirurgicamente para gerar valor real e mensurável, enquanto Richard Silva destacou que cabe ao CIO atuar como um habilitador, garantindo a autonomia na ponta sem abrir mão de diretrizes estratégicas corporativas claras.

Botão Voltar ao topo