
O sistema financeiro nacional vive uma revolução de grandes proporções. O que começou como infraestrutura para compartilhamento de dados transformou-se no principal motor de inovação do país. No painel “Open Finance em escala: do compartilhamento de dados à orquestração de ecossistemas”, realizado no Febraban Tech 2026 nesta segunda-feira, 24, líderes e reguladores debateram os caminhos que consolidam o Brasil como referência global em inovação.
Os números demonstram a velocidade da adoção. Segundo Ivo Mósca, diretor executivo de inovação, produtos e segurança da Febraban, o ecossistema atingiu plena maturidade. “No final de junho deste ano eram mais de 220 milhões de consentimentos aceitos e mais de 120 milhões de contas. Essa escala abre espaço para novos modelos de negócio. Com acesso a informações mais amplas, as instituições podem desenvolver ofertas mais especializadas e que respondem de forma mais precisa às necessidades dos clientes”, ressalta.
Essa aceleração é fruto de um arranjo robusto. Ana Carla Abrão, CEO da Associação Open Finance Brasil, relembrou os marcos recentes dessa trajetória. “Há um ano estávamos aqui falando sobre uma nova fase, que foi a criação da associação e da estrutura definitiva de governança. Foi um ano que valeu por dez pela aceleração. Estamos rumo aos 60 milhões de chamadas de API e aos 300 milhões de permissões”, reforça, lembrando que a primeira onda do Open Finance foi vencida.
Com as bases consolidadas, o foco mudou da tecnologia para a entrega de valor ao consumidor final. Marcelo Gomes, diretor de clientes varejo do Banco do Brasil, aponta esse divisor. “Temos que sair da visão da escala de tecnologia para a escala de geração de valor para o cliente. O Open Finance precisa se tornar em um bem tangível para o cliente”, defende.
Para viabilizar isso, Gomes destaca três pilares: confiança, disponibilidade/confiabilidade dos dados e inteligência aplicada. Como exemplo prático, ele conta que o BB está lançando seu aplicativo 5.0, projetado para permitir que o cliente acompanhe de forma integrada sua vida financeira.
Esse benefício prático também é defendido por Eduardo Lopes, diretor sênior de políticas públicas do Nubank. Ele observa que o Open Finance tem um potencial de impacto social imenso para novos entrantes. “No Nubank conseguimos entregar perfis de gastos, mostrando, por exemplo, se o cliente entrou no cheque especial. Isso mostra como a vida financeira pode ser simplificada e como ele pode receber melhores ofertas. O potencial de benefício social aqui é tremendo”, destaca.
Desafios à frente
Apesar do sucesso, consolidar o Open Finance exige vencer gargalos de governança e qualidade de dados. Janaína Attie, consultora do Banco Central, explica que o processo exige aprimoramento contínuo. “O Open Finance cresceu. Não se trata mais de colocar uma infraestrutura de pé. Agora temos que tratar da qualidade. Nada disso adianta sem dados transitados com a qualidade devida”, diz.
Janaína reforça que a qualidade é responsabilidade direta dos participantes, apontando o Open Finance como infraestrutura perene que conecta o setor e que o equilíbrio entre regulação e governança privada é fundamental. “Esse alinhamento entre os objetivos públicos do Open Finance e os objetivos de governança tem de estar alinhados e, quanto mais alinhados, menor a necessidade regulatória. Por isso temos um processo de amadurecimento pela frente”, acredita.
Neste processo, a Associação Open Finance vem trabalhando continuamente para aprimorar o monitoramento operacional. “Nosso desafio é garantir que isso continue evoluindo e dando conta das evoluções que vão surgir, o que passa pela implementação de produtos de forma mais eficiente, de melhores e mais seguras jornadas”, complementa Ana Carla.
De todo modo, a segurança continua no topo das prioridades do setor. Leandro Pupe Nóbrega, head de Data e IA do Santander Brasil, alerta que a escala exige atenção. “Para conseguirmos escala, temos de tratar de governança e segurança. Não se trata mais de adoção. Estamos falando de escalar o tema com segurança e proteger o cliente. Acreditamos que a confiança que temos com o cliente é um ativo que transforma o consentimento em relacionamento”, afirma.
Nóbrega enxerga caminhos promissores tanto em pessoa física (PF), oferecendo opções de investimentos, quanto em pessoa jurídica (PJ). “Em PJ queremos entregar valor. Se há um cliente multibancarizado de verdade, é o PJ. É um mercado a ser explorado, mas tem características específicas que requerem cuidado”, explica. A solidez do ecossistema é reforçada pelo Nubank. Lopes elogia o papel desempenhado pelo regulador e pela governança. “Acho que na frente de segurança temos feito um trabalho excelente, visto que não tivemos nenhum incidente nos últimos anos. Agora o setor avança na hiperpersonalização de serviços, concessão consciente de crédito e educação financeira, elevando a experiência do usuário a patamares inéditos”, conclui.




