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Banco Central: Pix será cada vez mais integrado a outros meios de pagamentos

Especialistas afirmam que a maturidade do Pix revelou uma faceta ainda mais estratégica: ele se tornou uma infraestrutura de mercado.

O ecossistema brasileiro de pagamentos vive uma série de mudanças provocadas pelo lançamento e disseminação do Pix. Em um dos painéis realizados nesta segunda-feira, 24, na Febraban Tech 2026, executivos Banco Central e da FGV-SP falaram sobre a metamorfose que vai além da simples transação, consolidando o Pix como plataforma de inovação e inclusão.

Quando o Banco Central (BC) lançou o Pix, sabia que havia demanda por algo rápido, barato e eficiente, mas a escala e velocidade surpreenderam. “A jornada do Pix confirmou algumas expectativas do BC, mas também surpreendeu pelos resultados obtidos em tempo tão curto”, relata Márcia Vicari, responsável pela divisão de gestão do Pix do BC.

O impacto na inclusão social não é desprezível. “Hoje 86% da população brasileira utiliza o Pix, mostrando que ele foi um vetor de inclusão financeira”, destaca Márcia. Esse avanço promoveu um “forte declínio no uso do dinheiro” físico, mas não asfixiou outros canais: meios como cartão de crédito também estão crescendo.

Para a consultora, a maturidade do Pix revelou uma faceta ainda mais estratégica: ele se tornou uma infraestrutura de mercado. “O Pix deixou de ser um produto e se transformou em uma plataforma na qual bancos e fintechs construíram novos serviços”, analisa Márcia, lembrando que essa arquitetura impulsiona soluções como “Pix a crédito, transações internacionais etc.

Ela revela que a próxima grande fronteira é o Pix Automático, projetado para pagamentos recorrentes, cuja complexidade técnica exige maturação gradual. “Aqui o BC tinha uma expectativa de adesão mais lenta, porque o produto exige uma integração maior entre o usuário e o recebedor”, explica Márcia. O mercado, porém, tem se adaptado.


“No primeiro ano, temos um estoque de 20 milhões de autorizações. A curva de concessão de autorizações cresceu muito nos últimos três meses e estamos falando de 95% de autorizações de crédito interbancário. Em 2025, fechamos dezembro com mil usuários recebedores, hoje temos 14 mil”, revela. Ela pondera que “muitos destes recebedores têm poucos pagadores, o que indica ainda um período de testes”, com adesão gradual de concessionárias de serviço público.

A geografia do uso

Apesar do sucesso, especialistas apontam para as nuances do uso do Pix. Lauro Gonzalez, professor da FGV-SP, acredita que é preciso ir além do acesso. “A inclusão financeira tem três dimensões: acesso, uso e qualidade. Precisamos atentar para a qualidade. No estudo Geografia do Pix, tratamos de adesão/acesso. Nesse ponto, o Pix é um tremendo sucesso”, pondera.

A pesquisa revela que o Pix é apropriado de acordo com a realidade socioeconômica: “o Pix é utilizado com frequência maior em lugares de renda menor. Na região Norte/Nordeste o número médio de transações por usuário é de 40, enquanto no Sul está abaixo de 30. No Amazonas chega a 48 transações”, ressalta. Por isso, Gonzalez defende que o debate migre de patamar: “Agora o interessante não é discutir a geografia do acesso, mais do uso e da qualidade e como o serviço impacta a vida das pessoas”, afirma.

Gonzalez diz que a facilidade transacional também traz riscos comportamentais e financeiros, sobretudo na concessão de crédito. “Claro que a melhora na jornada do cliente tem o lado positivo, mas como sempre, a remoção das fricções de mercado tem se revelado não necessariamente boa”, adverte.

Segundo ele, um estudo sobre jornadas de crédito revela que, “se as pessoas tomam decisões muito rápidas, principalmente em relação ao crédito, a falta de fricção pode levar a decisões impensadas”, diz, alertando para o risco de superendividamento. “Nem toda inclusão é automaticamente boa para o incluído”, afirma.

Outro obstáculo é a exclusão digital de uma parcela vulnerável da população. Gonzalez recorda que, durante a pandemia, “havia 5 milhões de pessoas que poderiam ter demandado o auxílio emergencial e não conseguiram por problemas de exclusão digital”. Esse gargalo é agravado por fatores estruturais, como a questão da conexão, o preço dos pacotes de dados e duas questões relacionadas ao usuário: os aparelhos não são adequados e a falta de habilidade, principalmente as pessoas mais pobres e mais velhas. “Para que o Pix atinja seu efeito mais potente, a questão da exclusão precisa ser pensada”, defende.

O Banco Central já projeta os próximos passos: “Imaginamos como próximos capítulos a integração crescente com outros serviços financeiros como duplicata escritural, pagamentos internacionais. Falamos de uso de fluxos futuros de recebimento via Pix como garantia para a oferta de crédito”, adianta Márcia, reforçando que o sucesso do ecossistema dependerá de equilibrar inovação, controle do superendividamento e inclusão digital. O avanço digital deve andar de mãos dadas com a cidadania financeira para que a tecnologia continue a transformar vidas positivamente.

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