

O mercado brasileiro de Internet das Coisas (IoT) e comunicação máquina a máquina (M2M) avança, mas ainda encontra obstáculos estruturais para atingir seu potencial. A expansão do número de dispositivos conectados contrasta com um ambiente em que o acesso às redes móveis, os modelos de cobrança no atacado, as cláusulas de exclusividade e a insegurança regulatória podem limitar investimentos e dificultar a entrada e a atuação de novos competidores. O diagnóstico faz parte do Estudo IoT/M2M, apresentado pela TelComp durante a Futurecom 2026.
Elaborado pela Pezco Economic & Financial Analysis, o estudo mostra que a conectividade de máquinas já representa uma parcela relevante do mercado móvel brasileiro e cresce em ritmo superior ao observado nas conexões utilizadas diretamente por pessoas. Em 2026, seis em cada dez acessos móveis eram associados a máquinas. Em julho, o país contabilizava 58,8 milhões de acessos por máquinas, número equivalente a quase 20% do total.
A dimensão desse mercado, entretanto, não se traduz necessariamente em receitas elevadas para a camada de conectividade. Os valores pagos variam de acordo com a aplicação e evidenciam um mercado de margens estreitas. Nas maquininhas de pagamento, o custo médio é de R$ 4,54 por aparelho ao mês, para um consumo de 10,75 MB. Em rastreamento e logística, o valor cai para R$ 2,33, com 5 MB de consumo. Em cidades inteligentes e mobilidade, chega a R$ 9,21, com 15 MB. Já as demais aplicações apresentam custo médio de R$ 3,03 por dispositivo, apesar de um consumo significativamente maior, de 110,88 MB mensais.
Para Gabriel Fiuza, sócio da Pezco Economic & Financial Analysis, esses números revelam um dos principais paradoxos econômicos da IoT: embora a conectividade seja indispensável para o funcionamento das aplicações, a maior parcela da receita está concentrada em outras etapas da cadeia.
“A conectividade captura pouca receita, embora controle o insumo que habilita toda a cadeia”, afirmou Fiuza. Segundo o estudo, apenas 8% da receita fica na camada de conectividade, enquanto 66% está concentrada em aplicações e serviços. O levantamento estima que existam atualmente 35 milhões de acessos IoT em operação no Brasil. Para o pesquisador, a expansão desse universo depende de uma infraestrutura de acesso capaz de atender às necessidades de diferentes modelos de negócio. “Sem acesso à rede competitivo, não conseguiremos avançar”, destacou.
Três portas, poucas alternativas
A questão central apontada pelo estudo está nas condições de acesso das empresas às redes móveis. Atualmente, existem três caminhos principais: a contratação por meio de uma operadora virtual, o roaming nacional e a possibilidade de permanência na rede, vinculada a um período de 90 dias.
Na avaliação da Pezco, considerados conjuntamente, esses mecanismos ainda oferecem poucas alternativas para que novas operadoras e empresas especializadas em IoT obtenham acesso à infraestrutura de maneira barata e eficiente. O estudo argumenta que a discussão regulatória não deveria se concentrar apenas no número de empresas que entram no mercado, mas na existência de condições reais para que elas possam disputar clientes e conquistar participação.
Nesse contexto, a chamada “contestabilidade” aparece como elemento central. Para Fiuza, é necessário que exista uma massa crível de usuários capaz de trocar de fornecedor, de forma que a possibilidade de mudança produza pressão competitiva mesmo antes de ocorrer efetivamente.
A análise de oito experiências internacionais reforça, segundo a Pezco, que não existe um único modelo capaz de organizar o mercado de IoT. Os países adotam diferentes combinações regulatórias, mas três elementos aparecem como relevantes: a qualidade dos dados disponíveis para a tomada de decisão, as condições concorrenciais existentes e os mecanismos utilizados para contratação do acesso à rede.
A conclusão é que a intensidade da intervenção regulatória deve acompanhar as características de cada mercado. Quanto melhores forem as condições de competição, menor tende a ser a necessidade de medidas estruturais.
Trocar de rede pode ser caro
Outro problema identificado está nos custos de mudança de rede depois que uma solução de IoT já foi implantada. Diferentemente do consumidor de telefonia convencional, que pode trocar de operadora mantendo o aparelho, uma solução de IoT pode envolver milhares ou milhões de dispositivos integrados a sistemas, contratos, plataformas e processos logísticos.
De acordo com o estudo, em determinadas situações o custo de migração pode chegar a 2,5 vezes o valor pago pela conectividade durante um ano. O eSIM reduz parte dos custos físicos envolvidos na substituição de chips, mas não elimina a dependência em relação à operadora. Isso ocorre porque as empresas que controlam as redes continuam administrando perfis e atributos considerados essenciais para a conectividade.
O resultado é uma assimetria que pode aparecer depois da contratação. Uma empresa pode escolher uma solução de conectividade considerando determinado preço, mas enfrentar custos elevados caso precise migrar posteriormente para outra rede. Na prática, o custo de troca pode reduzir a capacidade de negociação do cliente e funcionar como uma barreira à concorrência.
O estudo também chama atenção para a estrutura de preços no atacado. Como diferentes aplicações possuem volumes, necessidades técnicas e padrões de consumo distintos, uma mesma estrutura de cobrança pode produzir efeitos muito diferentes sobre cada segmento. “É importante olhar caso a caso, entendendo o quanto de cada parcela remunera um custo distinto, quanto a parcela fixa pesa na receita de centavos e quem fica com o risco de a demanda não aparecer”, explicou Fiuza.
Para a Pezco, essa análise é especialmente relevante em um mercado no qual o preço da conectividade pode representar apenas uma pequena parcela do valor final do serviço, mas ainda assim ser determinante para a viabilidade de projetos em larga escala.
Exclusividade entra no centro da discussão
A exclusividade contratual é outro ponto sensível identificado pelo levantamento. Na telefonia móvel para máquinas, o número de dispositivos em roaming permanente não seria, isoladamente, suficiente para determinar o impacto de uma operação sobre a rede. É necessário considerar também o acesso a múltiplas redes e a proporcionalidade das cláusulas de exclusividade.
A posição apresentada no estudo não é de eliminação automática da exclusividade. Segundo Fiuza, ela pode ser justificável quando estiver associada a investimentos que precisam ser protegidos e for proporcional a esse investimento. O problema ocorre quando a cláusula ultrapassa essa finalidade e passa a dificultar a concorrência ou a migração entre fornecedores.
O tema ganha importância porque projetos de IoT normalmente envolvem contratos de longo prazo, enquanto as regras regulatórias podem mudar em períodos diferentes. O descasamento entre a duração dos contratos e o horizonte regulatório cria, segundo o estudo, uma fonte adicional de risco para empresas que precisam realizar investimentos de longo prazo.
A indefinição sobre o regime que vigorará a partir de 2027 é apontada como um dos fatores de insegurança. Para a Pezco, previsibilidade é particularmente importante em IoT porque os investimentos são realizados antes de a demanda necessariamente estar consolidada.
Diante desse cenário, o estudo propõe uma abordagem gradual para a regulação. A adoção de medidas assimétricas seria justificável quando existirem barreiras estruturais elevadas e não transitórias, probabilidade persistente de poder de mercado e insuficiência dos instrumentos regulatórios já disponíveis.
A proposta foi organizada em três níveis. O primeiro reúne providências que podem ser adotadas dentro da regulamentação vigente. O segundo prevê aperfeiçoamentos pontuais no Plano Geral de Metas de Competição (PGMC). Apenas se essas alternativas não produzirem resultados seriam consideradas medidas estruturais, submetidas à avaliação dos efeitos alcançados.
A lógica é evitar uma solução única para um ecossistema formado por diferentes mercados, como pagamentos, logística, rastreamento, mobilidade e cidades inteligentes. “Temos mercados em IoT, cada um com características diferentes, por isso os modelos de cobrança devem estar alinhados”, afirmou Fiuza.
O estudo também identifica convergência com um parecer da Secretaria de Advocacia da Concorrência e Competitividade (SEAE), do Ministério da Fazenda. Segundo a apresentação feita pela Pezco, a análise do órgão chegou a conclusões semelhantes em relação aos obstáculos existentes nas três portas de acesso à rede.
Setor cobra previsibilidade
Para Luiz Henrique Barbosa da Silva, presidente executivo da TelComp, o debate tem impacto direto sobre a capacidade de empresas investirem e desenvolverem aplicações no Brasil. A entidade considera que determinadas cláusulas de exclusividade podem comprometer projetos que dependem de conectividade competitiva. “Nossas empresas investem no Brasil e, quando falamos em IoT, temos negócios e aplicações que não vão prosperar se houver cláusula de exclusividade”, afirmou.
Barbosa também compara o ritmo brasileiro com o de mercados industrializados. Embora reconheça que o mercado nacional esteja crescendo, avalia que o avanço poderia ser maior caso houvesse condições mais favoráveis para investimentos. “Os países industrializados têm taxas que crescem muito acima das nossas. Nosso mercado cresce, mas poderia crescer muito mais”, disse.
A insegurança regulatória é apontada pelo executivo como um dos principais fatores de preocupação do setor. Segundo ele, empresas já recorrem a pedidos de arbitragem na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para solucionar conflitos relacionados às condições de acesso. “Estamos em uma insegurança jurídica muito grande. Há empresas pedindo arbitragem na Anatel”, afirmou. A TelComp também contesta uma alteração de regras que, segundo Barbosa, foi objeto de recurso sem que a entidade tenha recebido retorno. Na avaliação da associação, a discussão sobre exclusividade permanece aberta diante da ausência de uma definição final do PGMC. “Hoje estamos no limbo. Como o PGMC não foi votado até o final, acreditamos que a questão da exclusividade ainda será discutida”, concluiu.



