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Estônia reinventa estado digital com exército de agentes IA

A Estônia começou a adotar agentes porque preveem um crescimento de 50% do PIB até 2050. É uma política de estado em que a IA precisa se traduzir em desenvolvimento econômico real", disse Raphael Fassoni, partnership builder do Estônia hub.

A Estônia, reconhecida como a nação mais digital do mundo, acaba de elevar o patamar da governança eletrônica ao iniciar a transição para o que especialistas chamam de Estado Agêntico. Em março de 2024, um teste marcou essa nova era: um contribuinte autorizou um agente de Inteligência Artificial (IA) a fazer sua declaração de imposto de renda, e o pagamento foi processado e recebido por outro agente autônomo. Esse movimento sinaliza uma mudança profunda na estratégia do país báltico, que agora foca em construir um “exército de agentes” em vez de expandir seu quadro de servidores públicos.

Para Raphael Fassoni, co-founder e partnership builder do Estônia Hub, essa não é apenas uma atualização tecnológica, mas uma agenda estratégica de desenvolvimento econômico. “A Estônia começou a adotar agentes porque prevê um crescimento de 50% do PIB até 2050. É uma política de estado em que a IA precisa se traduzir em desenvolvimento econômico real”, afirmou.

A transformação, batizada de “A Nova Estônia”, surgiu após uma análise SWOT (Strenghts, Weaknesses, Opportunities and Threats) detalhada do setor público em 2024, que identificou falhas crônicas de comunicação e baixa qualidade de dados. Para remediar esses problemas, o governo estabeleceu seis frentes de atuação prioritárias. As duas primeiras, já em operação, focam em governança de dados e interoperabilidade agêntica.

Esta última, colocada em funcionamento em junho deste ano, é o coração do sistema: ela define uma linguagem padrão para que diferentes agentes (do governo ou da iniciativa privada) se comuniquem, garantindo rastreabilidade e a criação de uma identidade para cada agente. “Isso permite saber exatamente até onde um agente pode ir e quem é o responsável por suas ações, incluindo a criação de um mecanismo que permite desligá-los em caso de necessidade”, explicou Fassoni.

As próximas etapas do plano estoniano incluem a criação de um registro central de algoritmos para permitir a reutilização de tecnologias dentro do governo, além de uma legislação horizontal que dê segurança jurídica ao processo. O objetivo final é a agentização total do Estado, com IAs atuando diretamente em áreas críticas como saúde, educação, tributação e assistência social.


O modelo para o Brasil

A experiência estoniana oferece um roteiro valioso para o Brasil, mas Fassoni alerta que o país não deve simplesmente tentar copiar o modelo final sem construir as bases necessárias. A estratégia sugerida divide-se em camadas: a camada 01 envolve identificar os problemas mais urgentes (“onde dói”), definir o valor da solução e quem patrocinará a iniciativa. Já a camada 02 foca na criação de uma fundação sólida, com governança robusta, política de dados clara e uma régua rigorosa de avaliação de riscos.

Fassoni destacou que o sucesso não depende apenas do modelo de IA, mas da prontidão da infraestrutura estatal. Ele citou exemplos de fracassos internacionais, como o Aurora AI na Finlândia e o MyCity em Nova York, que falharam não por erro nos algoritmos, mas por falta de fundações sólidas. “Na Estônia, o RIA (Autoridade de Inteligência Artificial) centraliza essas questões para garantir que a tecnologia funcione a favor do cidadão”, pontuou Fassoni.

Com as mudanças aceleradas nos últimos seis meses, a Estônia se consolida como o laboratório global da IA aplicada ao setor público. Para o Brasil, fica o recado de que a transformação digital eficiente exige mais do que tecnologia de ponta: requer uma fundação de dados impecável e uma governança que priorize a responsabilidade e o crescimento econômico.

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