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SECOP 2026: municípios desafiam a transformação digital

Mais do que precisar de dinheiro, os municípios precisam entender que tecnologia faz a diferença na gestão e no serviço ao cidadão.

A transformação digital no âmbito municipal não é apenas uma questão de implementação tecnológica, mas um desafio complexo que exige a colaboração estreita entre as esferas federal, estadual e municipal. Realizado nesta quarta-feira, 5, o painel “ABEP-TIC apoiando a transformação digital dos municípios”, durante o SECOP 2026, trouxe à tona os principais obstáculos e estratégias para garantir que os serviços digitais cheguem efetivamente ao cidadão.

A mediadora do painel, Ana Paula Lobo, diretora do Portal Convergência Digital, abriu o debate questionando a real natureza das parcerias atuais: “O grande ponto do nosso painel é entender como os governos podem atuar de forma conjunta para oferecer o melhor serviço digital ao cidadão. Quero entender como é essa relação, que é necessária. O compartilhamento é real? Os municípios buscam parcerias?”.

Em resposta, Thiago José Tavares Ávila, secretário-adjunto de transformação digital de Pedro Leopoldo (MG), enfatizou que a demanda municipal por apoio é latente, mas que o foco deve estar no fortalecimento das instituições locais. “Posso afirmar que os municípios querem esse apoio, precisam, mas é necessário discutir que tipo de apoio será concedido. Temos que discutir criação de capacidades estatais por meio da transformação digital. Esse é o foco que buscamos em Pedro Leopoldo”, disse.

Representando o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), Priscila Cabral destacou a trajetória do governo federal na democratização de sistemas como o SEI (Sistema Eletrônico de Informações), ressaltando que a tecnologia por si só não resolve o problema sem o capital humano adequado. “Temos o desafio dessa aproximação e dez anos de experiência na implementação de serviços digitais. Há o desafio dos recursos humanos e precisamos de pessoas nos municípios para que o governo federal possa ajudá-los nesse processo”, explicou a diretora.

A estratégia de capilarização dessas soluções federais passa, necessariamente, pelos estados. Mariana Meirelles, coordenadora-geral no MGI, detalhou como a plataforma gov.br e outros sistemas de compras e transferências operam de forma colaborativa. “Nosso parceiro principal é o estado, não conseguimos atender todos os municípios, então estabelecemos parcerias com os estados para que eles levem essas soluções aos municípios. Temos tido aderência enorme e os estados têm filas de atendimento”, revelou.


Mariana ainda reforçou a necessidade de profissionais técnicos para viabilizar a implantação, afirmando que “temos que trabalhar capacidades institucionais nos municípios, temos que ter técnicos de TI, analistas e profissionais que atendam os requisitos técnicos de implementação do sistema. É uma questão de tornar viável a implantação.”

O cenário regional, contudo, apresenta disparidades profundas. Paulo Henrique Silva de Oliveira, diretor na SEAD/AC, trouxe a realidade da região Norte, onde a carência de infraestrutura básica ainda é um gargalo para a digitalização. “Quando olhamos para o apoio que os estados podem dar aos municípios, encontramos um cenário muito heterogêneo”, disse. Ele lembra que na Região Norte, por exemplo, há estados com municípios e comunidades isoladas, o que traz um enorme desafio quando se fala de infraestrutura.

“Hoje, no Acre, fornecemos infraestrutura para os municípios sem custos, porque o projeto não funcionaria se exigisse uma contrapartida financeira. Temos um programa de capacitação de gestores para que eles possam assumir a gestão de suas estruturas.”

A experiência de Pernambuco, apresentada por Caio Scheidegger, secretário-executivo de Transformação Digital daquele estado, reforça a ideia de que os municípios buscam um ecossistema pronto de soluções. O estado criou a iniciativa “Liga Digital” para oferecer suporte sem ingerência política. “Todos atendemos o mesmo cliente. Em Pernambuco entendemos que os municípios, quando nos procuram, querem um cardápio de soluções porque eles não têm nada”, ponderou.

Realidades similares

Curiosamente, estados considerados mais desenvolvidos enfrentam desafios semelhantes de adesão e resistência cultural. Gileno Barreto, presidente da Prodesp, comparou a realidade paulista com a de outros estados brasileiros. “A realidade de São Paulo não é muito diferente da de estados como Pernambuco e Acre”, disse.

Barreto lembrou que São Paulo tem 450 municípios com menos de 40 mil habitantes e que muitos deles têm os mesmos desafios que uma pequena prefeitura do Acre ou Pernambuco, exceto a infraestrutura. Ele revelou ainda que, apesar da oferta gratuita de sistemas e zeladoria digital através do “Cidades SP.gov.br”, a adesão ainda é um desafio: “Apenas 200 dos 645 municípios aderiram. Mesmo os que tem soluções de mercado não conversam com o estado”, comparou.

O debate avançou para as barreiras subjetivas, como a liderança política. Ávila destacou que a transformação digital deve ser um compromisso de gestão e não apenas um projeto técnico. Para ele, o desafio de criar uma cultura ágil de resultados é o calcanhar de Aquiles, porque a transformação precisa ocorrer todos os dias, o tempo todo, e não existe sem a transformação das pessoas.

A sustentabilidade financeira também foi ponto central. Paulo Henrique Silva alertou para o risco de contratações sem planejamento a longo prazo. “A questão orçamentária é um desafio, por isso precisamos ter muito cuidado no planejamento daquilo que vamos fazer. Não adianta comprar uma solução hoje se não terei como pagar pela assinatura nos próximos cinco anos”.

Complementando essa visão, Scheidegger introduziu o conceito da “conta oculta”, que surge quando a demanda reprimida por serviços digitais é finalmente validada. “Sempre temos a conta do ano que vem. É uma conta oculta porque não sabemos o tamanho real da demanda. Quando você oferece um novo serviço, você valida esta demanda e não pode voltar atrás”, disse.

O futuro, marcado pela Inteligência Artificial, também foi discutido como uma ferramenta de eficiência para quem já possui processos digitais consolidados. Priscila lembrou que a IA depende de uma base sólida. “Muitas prefeituras não têm noção do que a IA vai fazer, e nosso papel é fazer com que pelo menos a base esteja pronta. Se você tem um sistema de gestão de seus processos administrativos, você consegue mostrar ao cidadão que você tem gestão com processos 100% digitais”. Mariana citou exemplos práticos, como agentes virtuais que auxiliam no uso do SEI em pequenos municípios.

Ao final, os painelistas foram provocados sobre ações de curto prazo passíveis de serem colocadas em prática até o final do ano. As respostas sintetizaram o sentimento de urgência e planejamento estratégico. Para Barreto, da Prodesp, em curto prazo é possível corrigir rumos. “Estamos adotando essa estratégia de ir pela educação, pensando em meios de avançar. Levar a plataforma de educação com IA para os municípios deve impulsionar a transformação”, afirmou.

“Hoje eu gostaria que os candidatos a governador e a presidente assumissem o compromisso de criar e implementar um Plano Nacional de Transformação Digital, que nos traria para um outro patamar para conversarmos em 2030″, provocou Ávila. Já Silva defendeu a necessidade de mostrar aos municípios que a transformação vai permitir que eles se conheçam. “Muitas prefeituras não têm consciência de seu tamanho. Com a digitalização você tem acesso a dados de qualidade, melhorando o planejamento e as decisões”, disse.

Para Scheidegger, é hora de gestores listarem seus problemas para discutir com seus pares e fornecedores o que é possível resolver, “o que permitiria escalonar a tecnologia.”

O painel concluiu que, embora as ferramentas tecnológicas estejam disponíveis, o sucesso da transformação digital municipal depende de uma estratégia nacional unificada, capacitação de pessoal e, acima de tudo, da vontade política de transformar a administração pública em um organismo orientado a dados e centrado no cidadão.

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